O consumo motivado por emoções continua sendo um dos principais fatores de desequilíbrio financeiro no país. Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o SPC Brasil indicam que mais da metade dos brasileiros já realizou compras por impulso, muitas vezes associadas a estados emocionais como ansiedade, estresse ou frustração. Esse comportamento ajuda a explicar por que, segundo a Serasa, mais de 70 milhões de pessoas estavam inadimplentes no Brasil nos levantamentos mais recentes.
Para Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira, a raiz do problema não está necessariamente na renda, mas na forma como o dinheiro é administrado. “A maioria das pessoas não perde o controle financeiro por falta de ganho, mas por decisões mal direcionadas no dia a dia. O consumo emocional é silencioso e recorrente”, afirma.
Segundo o especialista, compras feitas sem planejamento costumam gerar uma falsa sensação de recompensa imediata, mas comprometem o orçamento no médio prazo. “O problema é que esse tipo de consumo não resolve a causa emocional. Ele apenas mascara a situação e cria um novo problema, que é financeiro”, diz. Esse padrão se intensifica em períodos de maior exposição a estímulos de compra, como datas promocionais e campanhas digitais altamente segmentadas.
Para empresas, compreender esse comportamento também se tornou estratégico. Marcas que investem em educação financeira e transparência na comunicação tendem a construir relações mais duradouras com seus clientes. “Negócios que incentivam o consumo consciente fortalecem a confiança e reduzem o risco de inadimplência. Isso melhora a previsibilidade de receita e a reputação da marca”, explica.
Ao mesmo tempo, cresce a demanda por serviços especializados em organização financeira. Consultorias, planejadores e plataformas digitais têm sido procurados por consumidores que buscam retomar o controle do orçamento. Na hora de contratar esse tipo de serviço, o especialista recomenda atenção à qualificação técnica e à metodologia aplicada. “É fundamental escolher profissionais que trabalhem com planejamento estruturado, análise de comportamento e acompanhamento contínuo. Não se trata de cortar gastos aleatoriamente, mas de entender padrões e construir disciplina”, afirma.
O especialista aponta sete estratégias para reduzir o impacto do consumo emocional
Antes de listar as recomendações, ele ressalta que pequenas mudanças consistentes tendem a gerar resultados mais duradouros do que soluções radicais.
Identificar gatilhos de consumo
O primeiro passo é entender o que leva à compra por impulso. Situações de estresse, tédio ou frustração costumam ser os principais motivadores. “Quando a pessoa reconhece o gatilho, ela ganha tempo para decidir com mais racionalidade”, explica.
Criar um intervalo entre desejo e compra
Adotar o hábito de esperar algumas horas ou dias antes de efetuar uma compra ajuda a reduzir decisões impulsivas. Esse intervalo permite avaliar a real necessidade do item.
Organizar o orçamento com clareza
Ter visibilidade sobre receitas e despesas reduz a sensação de descontrole. Planilhas simples ou aplicativos financeiros já são suficientes para mapear para onde o dinheiro está indo.
Substituir recompensas financeiras por alternativas saudáveis
Buscar outras formas de compensação emocional, como atividades físicas ou lazer de baixo custo, pode reduzir a associação entre consumo e bem-estar. “É preciso ressignificar a recompensa”, diz.
Estabelecer metas financeiras concretas
Objetivos claros, como a construção de uma reserva de emergência ou a aquisição de um bem, ajudam a direcionar decisões e diminuem compras desnecessárias.
Reduzir exposição a estímulos de consumo
Evitar notificações de promoções, descadastrar e-mails de ofertas e limitar o tempo em aplicativos de compras são medidas práticas para diminuir impulsos. “Ambiente influencia comportamento. Quanto menos estímulo, mais controle”, afirma.
Buscar apoio profissional quando necessário
Em casos de desorganização recorrente, contar com um especialista pode acelerar o processo de reequilíbrio financeiro. O acompanhamento ajuda a criar disciplina e evitar recaídas. “O suporte técnico encurta o caminho e traz mais segurança nas decisões”, conclui.
O especialista alerta que ignorar o consumo emocional pode comprometer não apenas o orçamento, mas também planos de longo prazo. “Sem controle, a pessoa perde capacidade de investir, de poupar e até de lidar com imprevistos. A consequência vai além da conta no fim do mês”, diz.
Ele reforça que o equilíbrio financeiro depende de consistência e autoconhecimento. “Não se trata de parar de consumir, mas de consumir melhor. Quem entende o próprio comportamento financeiro toma decisões mais inteligentes e sustentáveis ao longo do tempo”, conclui.

