Houve um tempo em que preparar um café exigia espera. A água esquentava, passava devagar pelo coador de pano e, enquanto o aroma tomava conta da casa, havia alguns minutos para conversar, observar ou simplesmente esperar. Hoje, basta apertar um botão na máquina, pegar a xícara e continuar correndo. Ganhamos segundos. Mas o que estamos fazendo com o tempo que economizamos?
É a partir de provocações como essa que a exposição Território do Tempo, inaugurada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas de Mato Grosso (Sebrae/MT) na noite desta terça-feira (11), no Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), em Cuiabá, convida o visitante a olhar para algo que está presente em todas as escolhas, mas que quase sempre parece faltar: o tempo.
O percurso da exposição é dividido em seis estações, com conteúdos interativos e recursos tecnológicos que ajudam a conduzir o visitante por diferentes reflexões sobre tempo, consumo, natureza e sustentabilidade. Entre as experiências está a Cascata do Tempo, instalação em LED que muda de cor conforme a temperatura registrada do lado de fora do prédio, conectando o ambiente interno ao que acontece na natureza em tempo real. A exposição integra a segunda edição da Série CHÃO e tem como tema “Sentir, conectar e transformar a vida no trânsito do viver”.
Em uma cobertura especial, o MT Econômico acompanhou a abertura da exposição e conversou com a diretora-superintendente do Sebrae Mato Grosso, Lélia Brun, e com a curadora Linda Benítez sobre a proposta da mostra, a relação com o tempo e as reflexões que a experiência pretende despertar no público.

Mais do que apresentar respostas, a exposição aposta nas perguntas. Quanto tempo dedicamos ao que realmente importa? Ainda percebemos as mudanças da natureza ao nosso redor? Temos tempo para cuidar das plantas, tocar um instrumento, visitar um amigo ou simplesmente observar o céu? E, diante da velocidade do consumo e das transformações tecnológicas, quais marcas nossas escolhas deixarão para o futuro?
A diretora-superintendente do Sebrae Mato Grosso, Lélia Brun, resumiu durante a abertura uma das ideias que atravessam todo o percurso: “Um minuto atrás não nos pertence mais.”
Para Lélia, pensar o futuro significa, antes de tudo, estar atento ao presente. “O Território do Tempo nos provoca justamente a olhar para aquilo que permanece depois das nossas histórias. Essa é uma reflexão profundamente ligada à sustentabilidade, mas também à gestão, à sociedade e ao legado que queremos construir”, afirmou.

Conhecimento que ultrapassa os negócios – Em entrevista ao MT Econômico, Lélia explicou que a iniciativa está diretamente ligada à missão do Centro Sebrae de Sustentabilidade de produzir e disseminar conhecimento. A intenção, segundo ela, é fazer com que essa discussão ultrapasse os ambientes técnicos e chegue ao cotidiano das pessoas.
“O Centro Sebrae de Sustentabilidade foi criado para gerar conhecimento. E esse conhecimento tem que ser propagado, não ficar somente nas academias ou no próprio sistema”, destacou.
A exposição, segundo a diretora-superintendente, abre espaço para que cada visitante faça uma reflexão sobre a própria relação com o tempo e com pequenas decisões diárias.
“O que estamos fazendo com a nossa vida, por meio do consumo, por meio das pequenas ações cotidianas? Que possamos contribuir com uma reflexão muito maior da nossa existência, da existência no planeta”, disse ao MT Econômico.
É justamente nessa dimensão humana que o Sebrae amplia a discussão sobre sustentabilidade. Antes de chegar à gestão de um negócio, ao processo produtivo ou à inovação, há uma pessoa fazendo escolhas.
“É pensar primeiro nas pessoas, para que cada um analise como a gente pode pensar o consumo relacionado ao tempo. E, logicamente, isso vai refletir em como as empresas gerem os seus negócios”, explicou Lélia.

A proposta também amplia o papel do Centro Sebrae de Sustentabilidade como espaço de encontro entre conhecimento, cultura, inovação e sensibilidade.
“Entendemos que gestão também é isso: compreender que o tempo passa, mas aquilo que escolhemos construir pode permanecer”, afirmou a diretora durante a cerimônia. “Que essa exposição nos ajude a sentir, refletir e, sobretudo, escolher melhor aquilo que queremos deixar como legado”, destacou Lélia ao MT Econômico.
Do relógio ao tempo que se sente – Diretora criativa e curadora da mostra, Linda Benítez transformou o próprio ato de esperar em parte da experiência. Antes de explicar o conceito da exposição, pediu ao público cinco segundos de silêncio.
Parecia pouco. Mas a pausa ganhou outra dimensão diante de uma plateia acostumada aos compromissos, mensagens, notificações, prazos e agendas.
Linda usou a mitologia para apresentar duas formas de perceber o tempo: Chronos, associado ao relógio, ao cronograma e ao tempo que precisa ser cumprido, e Kairós, ligado aos momentos que ganham significado e que gostaríamos que durassem mais.
É o tempo de quando alguém se apaixona, aprende uma música no violão, se envolve com um livro ou vive algo que faz esquecer o relógio.
“Qual é o desafio? Como viver um tempo de Kairós com um sistema que coloca a gente para correr?”, provocou.

Em entrevista durante a cobertura do MT Econômico, Linda resumiu a essência do projeto: “O Território do Tempo é um convite para a gente pensar na nossa vida como ser humano dentro do Centro de Sustentabilidade. Para mim faz muito sentido, porque nada mais sustentável que o próprio tempo.”
Na visão da curadora, desenvolvimento econômico, empreendedorismo e sustentabilidade não podem ser discutidos sem considerar quem está no centro desses processos.
“Para a gente poder falar de desenvolvimento econômico, empreendedorismo, nós precisamos falar do ser humano”, disse.
E é esse ser humano que, segundo ela, vive pressionado pela sensação permanente de falta de tempo, pelas telas, pelo trânsito, pelas obrigações e pelo afastamento da natureza.
O café que ficou mais rápido, e a vida também – Uma das imagens usadas por Linda durante a abertura foi justamente a mudança na forma de preparar café.
“Antigamente o café era no coador de pano. Demorava. Agora você põe na maquininha e já sai correndo”, contou.
A questão levantada por ela não é defender o passado ou rejeitar a tecnologia, mas perceber o que aconteceu com as pausas que faziam parte da rotina.
“Aquele tempo do coador de pano era o quê? A gente não está conseguindo mais ter essa pausa.”
Horas antes da inauguração, segundo a curadora, uma visitante teve uma reação que sintetizou o propósito da exposição. Depois de percorrer o espaço, saiu emocionada e contou que havia deixado de cultivar plantas porque não encontrava mais tempo para cuidar delas.
A pergunta feita por Linda foi simples: se aquilo fazia tão bem, por que tinha deixado de ser essencial? A resposta veio na forma de uma decisão: ela queria ter plantas novamente. “Essa coisa é muito simples”, observou a curadora.
E talvez seja exatamente aí que Território do Tempo encontra sua força. Em vez de uma mensagem distante sobre sustentabilidade, coloca o tema dentro da casa, da agenda, das relações e das escolhas mais comuns.
Quatro mil semanas, Linda também apresentou ao público uma ideia que conheceu em seus estudos de filosofia: considerando uma vida de aproximadamente 80 anos, teríamos algo em torno de quatro mil semanas.
“Cada semana que nós vivemos é menos uma. Então, nesse tempo, estamos fazendo o quê?”, questionou em entrevista ao MT Econômico.
Na sequência, ela trouxe a dimensão cotidiana dessa conta: milhares de sábados, domingos e segundas-feiras que parecem numerosos quando vistos juntos, mas que se sucedem sem possibilidade de retorno.
“Se eu puder voltar para casa com essas reflexões, o Território do Tempo faz sentido para mim”, disse.

A exposição levou cerca de um ano para ser construída. Quando o MT Econômico perguntou se havia sido um tempo calculado ou corrido, Linda respondeu com outra definição que traduz o processo criativo: “Você calcula tudo, só que a vida descalcula tudo.”
Mais de 100 profissionais participaram da construção ao longo do processo, entre artistas, técnicos, engenheiros e equipes criativas.
Quando o que era resíduo passa a ser visto – A reflexão sobre o tempo também chega àquilo que consumimos e descartamos.
Entre as obras que chamam atenção está Órbita dos Invisíveis, dos artistas Lula Duffrayer e Flávio Carvalho, do projeto Pirilampos do Planeta. A instalação transforma cerca de 80 quilos de resíduos plásticos, entre embalagens, tampas, garrafas, brinquedos e materiais descartados pela indústria, em uma composição de formas, luzes e cores.
O trabalho integra um conjunto de obras produzido a partir de aproximadamente cinco toneladas de resíduos. O projeto já passou por espaços como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Belo Horizonte, pela COP30, em Belém, e por Londres, na Inglaterra.
O contraste é proposital, materiais que perderam valor para alguém voltam ao campo de visão como arte. Linda define essa capacidade como enxergar o que a pressa tornou invisível. “Você passa, às vezes, pelas coisas e não percebe”, disse.
A mesma lógica aparece na relação com o território. Uma árvore floresceu? Secou? A chuva demorou mais para chegar? A paisagem mudou? São acontecimentos que continuam ocorrendo, mesmo quando a rotina parece rápida demais para percebê-los.
“Enquanto nós estamos parados aqui dentro dessa sala, lá fora está tudo acontecendo. O vento está ventando, a nuvem está passando e a vida está girando”, afirmou a curadora.

Sebrae quer levar reflexão também às novas gerações – O público que o Sebrae pretende alcançar vai além dos pequenos negócios.
Lélia contou ao MT Econômico que estudantes estão entre os públicos prioritários da iniciativa. A instituição pretende sensibilizar gestores da educação e ampliar parcerias para estimular visitas de escolas.
“Nossa expectativa inicialmente não foi somente pensando nos nossos clientes, que são as micro e pequenas empresas e o MEI, mas também nos estudantes, uma geração que possamos transformar, que eles saiam daqui sendo agentes de transformação de toda uma sociedade”, explicou.
O Sebrae também pretende aproximar da exposição trabalhadores diretamente ligados à reciclagem. Lélia citou o programa Pró-Catadores e destacou a intenção de promover momentos específicos de visita e valorização desses profissionais.
A proposta é possibilitar que eles também reconheçam no espaço a importância do trabalho que realizam na cadeia de reaproveitamento dos materiais.
Para a diretora-superintendente, abrir o Centro Sebrae de Sustentabilidade à cultura é também uma maneira de estimular a população a frequentar ambientes que favoreçam outras formas de pensar.
“Nós queremos estimular a participação em ambientes que possibilitam reflexão”, disse ao MT Econômico.
Uma exposição para sentir antes de explicar – No fim de sua fala, Linda fez um último pedido aos convidados: não tentassem compreender imediatamente cada obra.
“Não precisa entender a exposição, não precisa estar tentando explicar. Simplesmente sinta.”
A proposta da mostra é justamente estimular esse tipo de percepção, levando o visitante a refletir sobre hábitos cotidianos, consumo, relação com a natureza e uso do tempo. Ao longo do percurso, situações simples, como observar o céu, cuidar de uma planta ou repensar a forma como consumimos, aparecem como pontos de reflexão dentro da experiência.
A exposição também retoma uma das perguntas que atravessam toda a proposta: diante de uma rotina cada vez mais acelerada, o que estamos fazendo com o tempo que conseguimos ganhar?

Visitação – A exposição Território do Tempo está aberta ao público no Centro Sebrae de Sustentabilidade, na Rua Cinco, nº 144, Centro Político Administrativo, em Cuiabá.
A visitação é gratuita e segue até 18 de dezembro de 2026, mediante agendamento. Os horários são das 8h às 12h e das 14h às 17h. Segundo o Sebrae Mato Grosso, o agendamento permite organizar os grupos e proporcionar ao visitante um percurso mais acolhedor e reflexivo pela exposição.
Agendamento: sustentabilidade.sebrae.com.br/agendamento
Informações: (65) 99612-9821



