Entre concreto, ferramentas, prazos e a rotina intensa de uma obra, um novo espaço passou a fazer parte do cotidiano de trabalhadores da Construtora São Benedito: a sala de aula. Nesta quarta-feira (19), 21 colaboradores participaram da formatura da primeira turma do projeto Bendito Saber, em uma cerimônia marcada pela emoção e pela realização de sonhos que, para muitos, estavam adiados havia décadas.
A iniciativa oferece gratuitamente a possibilidade de conclusão do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio e funciona nos moldes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A proposta aproxima a educação do ambiente profissional, permitindo que trabalhadores que interromperam os estudos retomem a formação sem precisar se distanciar da rotina de trabalho e da família.

Na primeira turma, estão homens e mulheres, muitos deles entre 38 e 61 anos, com trajetórias marcadas pelo ingresso precoce no mercado de trabalho, pela necessidade de sustentar a família e por oportunidades educacionais que precisaram ser adiadas.
Para Amir Maluf, diretor de marketing da São Benedito, acompanhar a primeira formatura tornou visível o alcance social da iniciativa. “É muito gratificante, porque a gente está contribuindo para a sociedade. Cada pessoa que a gente consegue ajudar na alfabetização é uma sociedade melhor. O mais importante de tudo é a emoção de ver nos olhos de cada formando a alegria de poder aprender, de poder ser educado e contribuir mais para a sociedade”, afirmou ao MT Econômico.
Segundo ele, a escolarização também amplia as perspectivas profissionais dos colaboradores, seja dentro da construção civil ou em novos caminhos. “Depois disso pode vir o ensino superior, a faculdade, ele escolher um curso onde possa atuar melhor no setor onde trabalha ou até escolher uma outra profissão. Isso chama-se independência. O estudo ninguém tira da pessoa.”

A iniciativa atual retoma uma experiência iniciada anteriormente pela construtora, quando atividades educacionais chegaram a ser realizadas dentro das obras. O trabalho precisou ser interrompido durante a pandemia e agora retorna em um formato ampliado, reunindo profissionais de diferentes funções, como auxiliares, técnicos, pedreiros, serventes e outros colaboradores.
Um diploma que carrega histórias
Entre os formandos está Marcelino Cavalcante, de 47 anos. Pernambucano, ele conta que interrompeu os estudos em 1997, ainda na quinta série, para trabalhar e ajudar a mãe na criação dos irmãos.
A construção civil sempre esteve presente em sua vida. Filho de um mestre de obras, Marcelino cresceu acompanhando de perto o trabalho do pai, que morreu em 2014. Foi dessa convivência que nasceu um sonho antigo: tornar-se engenheiro civil.
“Todo sonho vai ter dificuldade. Toda conquista vai ter dificuldade. Quando você já é um homem casado, com dois filhos, fica mais difícil, porque tem que juntar trabalho, família e estudo. Mas, com dedicação e esforço, estamos chegando”, relata.
Depois de décadas longe da escola, ele decidiu retomar os estudos e transformar o desejo de juventude em um novo projeto de vida.
“Desde jovem eu sempre achei linda a arte da engenharia, da construção civil. Então brotou dentro de mim esse sonho. Hoje, aos 47 anos, resolvi unir o conhecimento com o dinheiro. Agora eu vou em busca dos meus sonhos e ninguém para mais. Agora é em busca da engenharia civil”, disse Marcelino ao MT Econômico.

A história de Dileuda Freire, de 48 anos, também é marcada por uma longa pausa nos estudos. Natural do Maranhão, ela conta que deixou a escola por volta dos 16 anos. Trinta e dois anos depois, encontrou no projeto a oportunidade de voltar.
“Trabalhei em várias empresas, mas nunca tive essa oportunidade que a São Benedito oferece para os seus funcionários. Através dela, eu estou terminando meus estudos para entrar em um curso, uma faculdade”, relatou a formanda ao MT Econômico.
Dineuda trabalha no refeitório e destaca que a estrutura oferecida pela empresa foi decisiva para conseguir conciliar as responsabilidades profissionais com as aulas. Nos dias de estudo, segundo ela, os funcionários são liberados mais cedo, o que reduz o desgaste depois de uma jornada inteira de trabalho. Os estudantes também recebem lanche e acompanhamento dos professores. “É um dia muito feliz para mim. Eu só tenho que agradecer”, resume.

Educação dentro do trabalho
A metodologia é oferecida pelo SESI e considera não apenas os conteúdos escolares tradicionais, mas também os conhecimentos acumulados pelos estudantes ao longo da vida.
Pollyana Coelho, gerente da EJA do SESI Escola de Várzea Grande, explica que a formação utiliza uma metodologia de reconhecimento de saberes. A instituição disponibiliza professores, material e acompanhamento pedagógico, enquanto a São Benedito oferece o espaço e mobiliza os colaboradores interessados.

O modelo combina 80% de atividades on-line e 20% presenciais. Mesmo a parte remota pode ser realizada no ambiente da empresa, com apoio dos professores. Por isso, o período necessário para concluir a formação varia conforme o histórico e a dedicação de cada estudante. Em alguns casos, o Ensino Médio pode ser finalizado em dez meses ou cerca de um ano.
Um dos resultados mais significativos da primeira turma foi a permanência dos alunos até o final. “Ficamos muito felizes com o resultado, porque não tivemos evasões nessa turma. O estudante da EJA tem uma propensão a desistir no meio do caminho. Quando ele está dentro do trabalho, da vivência diária, isso facilita para que a gente vá até o final com ele”, explica Pollyana à reportagem. Para a educadora, oferecer formação dentro das empresas também pode gerar novas oportunidades de crescimento profissional.
“Por trás de cada aluno tem uma história muito bonita. Eles se formando e se profissionalizando, a capacidade de conseguirem um emprego melhor, um posicionamento melhor no mercado de trabalho, é muito maior.”Ela defende ainda que empresas podem utilizar programas educacionais como forma de reconhecer e desenvolver talentos que já fazem parte de seus quadros. Dessa maneira, trabalhadores ganham condições para crescer profissionalmente sem que a organização precise buscar todas as qualificações fora de sua própria equipe.
“Mais um sonho realizado”
Para Omar Maluf, diretor-presidente da São Benedito, a formatura mostra que a iniciativa ultrapassa a qualificação de mão de obra e alcança também a vida familiar e pessoal dos participantes.“ É mais um sonho realizado para esses pais de família. A São Benedito não pensa só em pegar mão de obra, mas está capacitando profissionais. Estamos dando oportunidade aos colaboradores que não tiveram a oportunidade de estudar na juventude de ter essa escolaridade e uma qualidade de vida melhor para eles e para suas famílias”, relatou ao MT Econômico.
O diretor-presidente conta que se emocionou ao acompanhar a conclusão da primeira turma nesta quarta-feira. “Eu me emocionei de ver a carinha de cada um ali. A gente sabe que não é fácil. Eles têm que cuidar da família, têm muito trabalho e, mesmo assim, ainda precisam participar e estudar. Então eu me emocionei junto com eles nesse momento de formação.”
Muitos desses trabalhadores, explica Omar, começaram a trabalhar ainda jovens e deixaram a escola para sustentar filhos e familiares. Ao trazer a educação para dentro do ambiente profissional, o projeto encontrou uma maneira de encaixar os estudos em uma rotina que, durante anos, pareceu incompatível com uma sala de aula.





