Com a virada para 2026, produtores rurais e empresas do agro têm colocado na agenda um tema que, até pouco tempo, aparecia apenas em momentos extremos: alongamento e renegociação de dívidas rurais. O movimento ganha força em um cenário de crédito mais seletivo e caro e, sobretudo, de alerta sobre a inadimplência.
Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontou que o crédito rural a taxas de mercado registrou inadimplência de 11,4% em outubro de 2025, o maior nível desde o início da série histórica (2011) — um sinal de “luz vermelha” para o financiamento da atividade produtiva.
Para o advogado empresarial e especialista em renegociação rural, Arthur Rodrigues, o ponto central é que nem toda dificuldade de pagamento significa a falência da operação. Muitas vezes, trata-se de uma travessia conjuntural que exige reorganização de cronograma e proteção do ciclo produtivo.
“No agro, tudo é muito cíclico, desde produção, clima, preço até a logística. Quando acontece uma frustração de safra ou uma dificuldade séria de comercialização, o crédito pode deixar de ser ferramenta e virar pressão. O que temos visto é uma mudança de mentalidade. O alongamento e renegociação deixam de ser tabu e passam a ser instrumentos de gestão de risco, para preservar caixa e manter o ciclo girando”, afirma.
O QUE ESTÁ MUDANDO NO MERCADO? – Além do aumento da inadimplência em linhas a taxas de mercado, o setor vive maior complexidade financeira. Nos últimos anos, cresceu a participação de títulos privados no financiamento do agro (como CPR, CRA, LCA e FIAGRO), ampliando alternativas e, ao mesmo tempo, exigindo mais atenção ao desenho contratual e às garantias. O Boletim de Finanças Privadas do Agro, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), vinha registrando expansão consistente desses instrumentos. Os números evidenciam estoques na casa de R$ 1,4 trilhão em 2024, mostrando bem como o crédito privado se consolidou no campo.
No plano institucional, o tema também avançou em Brasília: uma comissão da Câmara aprovou proposta para simplificar a renegociação do crédito rural (PL 8676/2017), reforçando que o assunto deixou de ser pontual e ganhou relevância estrutural para a atividade agropecuária.
É nesse cruzamento de crédito caro, contratos mais sofisticados, riscos climáticos e volatilidade de mercado que a prorrogação e o alongamento entram como alternativas legítimas para produtores que enfrentam dificuldades temporárias.
ALONGAMENTO NÃO É “FAVOR” – O alongamento (ou prorrogação) da dívida rural é um mecanismo que permite ao produtor reorganizar prazos de pagamento de operações de crédito rural quando há incapacidade temporária de pagamento por fatores alheios à sua vontade, como frustração de safra, eventos climáticos adversos e dificuldades de comercialização. As bases do crédito rural estão na Lei 4.829/1965 e nas normas do Manual de Crédito Rural (MCR). O MCR prevê prorrogação “devida” em determinadas condições, quando comprovada incapacidade por eventos como frustração de safra e dificuldade de comercialização.
“Um erro comum é o produtor achar que renegociar é apenas aceitar a proposta que chega do banco. Só que renegociação genérica e alongamento do crédito rural são coisas diferentes. Dependendo do que se assina, o produtor pode mudar o enquadramento do contrato, assumir condições mais caras ou abrir mão de direitos que já existiam. A regra é simples: antes de assinar, é preciso entender o enquadramento e a documentação”, resume Arthur.
O RISCO DO ‘DESESPERO CONTRATUAL’ – Segundo o especialista, um dos maiores problemas na prática é a corrida para “resolver rápido” em momentos de aperto, sem organizar prova técnica e sem clareza do impacto financeiro real. E isso deve ser evitado:
“Muita gente chega ao banco com o problema na mão, mas sem documentação e sem estratégia. Aí, qualquer aditivo parece solução. E é exatamente aí que o custo total pode aumentar ou o produtor pode perder margem de negociação. No agro, crédito conversa com clima, produtividade, preço e logística. Por isso, a análise precisa ser multidisciplinar: contrato, caixa e prova técnica do evento adverso”, explica.
7 PASSOS PARA FAZER O PEDIDO COM SEGURANÇA – Para ajudar produtores e empresas do agro a reduzir riscos e aumentar a chance de um encaminhamento adequado, Arthur elenca um checklist prático do que deve ser feito antes do primeiro movimento com a instituição financeira:
– Mapeie a operação (custeio, investimento, comercialização) e identifique vencimentos, garantias e aditivos.
– Documente o fato gerador: laudo técnico/agronômico, registros de perda de produtividade, evidências climáticas, relatórios de pragas/doenças, notas e documentos que comprovem dificuldade de comercialização.
– Meça o impacto no caixa: quanto a quebra afetou a receita e qual reprogramação de prazos seria exequível.
– Prepare uma justificativa objetiva (1 página) com causa, impacto e pedido, sem excesso de narrativa, com fatos.
– Protocole formalmente o requerimento e guarde comprovantes (o timing e o registro contam).
– Evite assinar aditivos “genéricos” sem entender o custo efetivo total e os efeitos sobre o enquadramento do contrato.
– Exija clareza do cronograma final, condições e encargos antes de aceitar qualquer proposta.
“Alongamento bem feito não é empurrar dívida para frente. É reorganizar o cronograma para preservar a atividade, evitar inadimplência e manter o produtor com capacidade de cumprir o próximo ciclo. A decisão precisa ser tomada com dados, prova técnica e leitura contratual, e não na base do improviso”, reforça Arthur Rodrigues.
Segundo Arthur, a tendência para 2026 é que o alongamento e a renegociação passem a ser encarados como ferramentas de preservação do ciclo rural, sobretudo em um ambiente de crédito mais exigente e riscos climáticos recorrentes. “Com inadimplência elevada nas linhas a taxas de mercado, avanço do crédito privado e debate legislativo sobre renegociações, o produtor que se antecipa com documentação, cálculo de impacto e estratégia reduz ruído, evita decisões precipitadas e protege o que sustenta toda a cadeia, que é produção contínua, previsibilidade e capacidade de investimento no próximo ciclo”, conclui o especialista.
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