A Reforma Tributária já começou a produzir efeitos práticos no dia a dia do agronegócio brasileiro. Embora a cobrança efetiva dos novos tributos sobre o consumo esteja prevista apenas a partir de 2027, produtores rurais e empresas do setor precisam se adaptar desde já às mudanças operacionais que entraram em vigor em janeiro de 2026. Em Mato Grosso, principal potência agropecuária do país, o alerta é claro: quem não se preparar agora pode enfrentar riscos fiscais e perda de competitividade nos próximos anos.
O MT Econômico traz essa matéria especial para os produtores rurais ficarem atentos às mudanças com a nova Reforma Tributária.
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) destaca que as novas obrigações acessórias já são realidade e exigem atenção imediata. As regras decorrem da Emenda Constitucional nº 132/2023 e da Lei Complementar nº 214/2025, que instituíram o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência estadual e municipal, e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal. Esses tributos substituirão, de forma gradual, o PIS, a Cofins, o ICMS e o ISS, adotando o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA).
Na prática, desde 1º de janeiro de 2026, todos os documentos fiscais emitidos no setor agropecuário — inclusive por produtores que utilizam sistemas próprios — precisam conter os campos específicos de IBS e CBS. Mesmo sem recolhimento neste momento, o preenchimento correto é obrigatório e já está sujeito à fiscalização.
Segundo o analista tributário da Famato, José Cristovão Martins Junior, o ano de 2026 deve ser encarado como um período decisivo de ajuste. “Este é o momento de organizar processos internos, atualizar sistemas emissores de nota fiscal, estruturar o controle de créditos de insumos e alinhar todas as rotinas com o contador. O produtor não pode tratar este ano como algo meramente burocrático”, afirma.
Os dados informados agora servirão de base para que o Fisco teste sistemas, valide regras, ajuste alíquotas e consolide a metodologia de cobrança que entrará em vigor a partir de 2027. Erros ou omissões em 2026 podem gerar autuações, multas e questionamentos futuros, mesmo antes da cobrança efetiva dos novos tributos.
Créditos tributários ganham protagonismo no agro
Um dos pontos centrais da Reforma Tributária para o produtor rural é o novo regime de créditos. No modelo do IVA, os tributos pagos na compra de insumos agropecuários — como sementes, fertilizantes, defensivos, rações, medicamentos veterinários e até fretes — poderão ser utilizados para abater os tributos devidos na venda da produção.
Para o advogado tributarista e especialista em agronegócio, Fábio César Júnior, esse mecanismo pode representar ganho de eficiência, mas exige disciplina. “O crédito só existe se a documentação fiscal estiver correta. Nota mal emitida, fornecedor irregular ou falha no vínculo entre insumo e produção pode significar perda de crédito”, explica.
Em culturas intensivas em insumos, como soja, milho e algodão, o potencial de geração de créditos é elevado. Já na pecuária de corte e de leite, despesas com nutrição animal, medicamentos, reprodução e logística também ganham peso relevante na formação desses créditos. “O produtor que não organizar sua contabilidade agora corre o risco de pagar mais imposto no futuro por não conseguir comprovar seus créditos”, alerta o especialista.
Diferença entre pequenos e grandes produtores
A nova legislação prevê regimes diferenciados. Produtores com receita bruta anual de até R$ 3,6 milhões poderão se enquadrar em modelos simplificados, ainda em regulamentação. Acima desse limite, a migração integral para o novo sistema será obrigatória, com controles mais rígidos e maior exposição à fiscalização.
Para o economista do agro e consultor tributário Ricardo Amorim Filho, 2026 é o ano ideal para simulações. “O produtor precisa entender como ficará sua carga tributária real a partir de 2027. Dependendo da atividade, do nível de insumos e da estrutura jurídica, o impacto pode variar bastante. Quem simular agora consegue ajustar estratégia, contratos e até estrutura produtiva”, avalia.
CNPJ passa a ser obrigatório no campo
Outra mudança relevante é a exigência de CNPJ para todos os produtores rurais a partir de julho de 2026. A medida impacta diretamente a emissão de notas fiscais e o relacionamento com fornecedores, cooperativas e tradings, embora não altere, necessariamente, o modelo de tributação.
Além disso, produções realizadas em regime de sociedade precisarão estar formalizadas, com CNPJ que contemple todos os sócios. A criação de filiais por propriedade rural também passa a ser considerada uma estratégia válida para melhorar o controle de estoque, logística e aproveitamento de créditos tributários.
“O produtor rural está entrando definitivamente em uma lógica empresarial mais estruturada”, observa o contador e consultor do setor agro, Marcos Vinícius Teixeira. “Isso traz mais transparência, mas também exige profissionalização da gestão fiscal e contábil.”
Planejamento agora evita prejuízos no futuro
A Reforma Tributária representa uma das maiores mudanças já enfrentadas pelo agronegócio brasileiro em termos fiscais. Para Mato Grosso, onde o campo é o principal motor da economia, a adaptação correta será determinante para manter competitividade, margens e segurança jurídica.
Mais do que uma obrigação legal, 2026 se consolida como um ano estratégico de preparação. Atualizar sistemas, organizar documentos, revisar estruturas jurídicas e buscar orientação especializada deixou de ser opção e passou a ser uma necessidade para quem produz no campo e quer atravessar a transição tributária com solidez e previsibilidade.
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