A fila de caminhões carregados com soja de Mato Grosso chegou a cerca de 25 quilômetros no acesso ao Porto de Miritituba (PA), rota mais rápida e mais barata para se exportar o grão, na manhã de ontem (24). Já no final do dia, a fila registrava 20 quilômetros. Durante todo dia, caminhoneiros enfrentaram chuva e fluxo travado, com lentidão na triagem e no descarregamento. A ‘odisseia’ da soja mato-grossense foi acompanhada pela comitiva do Estradeiro BR-163 — Do Campo ao Porto, formada por presidentes de 20 sindicatos rurais e liderada pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato).
A caravana foi justamente motivada para acompanhar, in loco, as condições logísticas do escoamento da safra de Mato Grosso pelos portos do complexo do Arco Norte. O grupo saiu da região do KM 30 e seguiu até o porto, em um trajeto de pouco mais de 30 km, onde constatou mais de 25 km de fila de caminhões carregados com soja mato-grossense.
O congestionamento ocorre em meio ao pico da colheita, entre fevereiro e abril, período que eleva o volume de cargas e pressiona a logística de escoamento. O cenário se intensifica diante da previsão de nova safra recorde em Mato Grosso, estimada em mais de 50 milhões de toneladas, ampliando gargalos já existentes na infraestrutura de acesso ao porto, considerado estratégico para o transporte de grãos.
A Famato ressalta que há cerca de 8 km de pista de terra nos acessos, ponto crítico que, com chuva, tende a agravar a instabilidade do tráfego e reduzir a previsibilidade do fluxo. Enquanto a pavimentação definitiva e outras melhorias estruturais não forem concluídas, o setor deve continuar enfrentando limitações logísticas que impactam diretamente o escoamento da produção.
A entidade busca interlocução com os governos de Mato Grosso e do Pará, além do Ministério da Agricultura e do Ministério dos Transportes, para viabilizar soluções e enfrentar um gargalo logístico que não pode ser tratado como normalidade.
Durante a visita, caminhoneiros relataram longas esperas para triagem e descarregamento, além de falta de apoio básico ao longo da fila. Para o presidente da Famato, Vilmondes Tomain, o cenário evidencia a necessidade de ampliar a capacidade portuária e melhorar a gestão do fluxo com apoio do poder público.
“Esse é um Brasil que transforma, um Brasil que gera muita riqueza, só que temos que ter respeito com essas pessoas. Infelizmente não está havendo respeito com as pessoas que estão trabalhando”, afirmou Vilmondes.
OPERAÇÃO EM MIRITITUBA (PA) – O presidente defendeu que o gargalo logístico não pode ser tratado como normalidade e pediu união entre entes públicos e setor produtivo para encaminhar soluções estruturantes.
“Não é possível enfrentar uma fila gigante como esta de caminhões aguardando para fazer triagem, para descarregar. Isso não tem lógica. Faço um apelo para os nossos representantes, para os governos de Mato Grosso e do Pará e para a gente unir forças. Ministério da Agricultura e Ministério dos Transportes precisam vir aqui ver de perto essa demanda para trazer soluções”, disse.
FALTA APOIO E ORGANIZAÇÃO – Na fila, o caminhoneiro Luigi Brischiliari relatou ausência de estrutura mínima, como banheiros e pontos de atendimento, além de impactos emocionais causados pela espera prolongada.
“Aqui a gente está jogado, não tem banheiro, a gente passa dificuldade. São muitos pais de família e não tá merecendo esse descaso, abala muito é o psicológico. Tem colega que fica tantas horas e acaba fazendo coisa errada na estrada”, afirmou.
Outro caminhoneiro, Rodrigo Caiçara, apontou falhas na triagem e na organização do fluxo, o que, segundo ele, contribui para o acúmulo de caminhões ao longo da rota até o porto. “O que a gente tá vendo aqui é falta de organização. Tem empresa que não tá suportando receber os caminhões. Isso vai entupindo e a fila e por isso estou aqui há vários dias”, relatou.
ARTICULAÇÃO – Com base no que foi observado e ouvido durante a visita, a Famato defende uma agenda propositiva para reduzir filas e aumentar a previsibilidade do escoamento. Para Vilmondes, é preciso ampliar a capacidade portuária e de triagem, com expansão de pátios, melhorias operacionais e reforço de equipes em períodos de pico”.
Ainda segundo o presidente, é preciso viabilizar novos armazéns, o que dará planejamento de médio e longo prazo para aliviar o pico sazonal da safra.
“A questão do armazenamento de Mato Grosso é essencial para equilibrar o escoamento. Tem que começar lá atrás: armazém, rodovias e porto. Isso é planejamento. Se o produtor colhe e consegue armazenar, esse fluxo aqui também melhora”, afirmou Vilmondes.
A agenda do Estradeiro segue ao longo desta semana, realizando visitas e avaliação rodoviária às etapas de transbordo e porto no Arco Norte, reunindo informações para subsidiar propostas de infraestrutura e logística com foco em competitividade, segurança e condições de trabalho no transporte de cargas.
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