O setor da construção vê com cautela a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros em 15%. A decisão foi anunciada, ontem (28), ao término da primeira reunião do colegiado em 2026, confirmando a continuidade de uma política monetária restritiva.
Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, o cenário de juros altos limita tanto a demanda por imóveis quanto a capacidade das empresas de viabilizar novos projetos. Segundo ele, o impacto vai além do crédito habitacional e atinge toda a cadeia produtiva do setor.
“Uma política monetária contracionista encarece o crédito imobiliário, reduz a demanda por novos empreendimentos e desacelera a atividade da construção. Juros altos aumentam os custos, restringem o acesso ao financiamento e afetam a confiança dos investidores”, afirmou.
A construção é um dos setores mais sensíveis à taxa de juros, por depender de financiamentos de longo prazo e por ter forte efeito multiplicador sobre o emprego e a renda. A avaliação é de que os efeitos podem se estender até 2026, mesmo com a expectativa de maior disponibilidade de recursos para o financiamento imobiliário. “É necessária uma trajetória de queda dos juros como condição para uma retomada mais consistente da atividade econômica”, complementou o presidente da CBIC.
MANUTENÇÃO DOS JUROS NOS EUA – Também ontem – na chamada de Super Quarta – o Federal Reserve decidiu manter a taxa básica de juros nos Estados Unidos no patamar atual reforça a postura de cautela da autoridade monetária americana. Apesar de sinais de desaceleração da inflação ao longo dos últimos trimestres, o Fed segue atento à resiliência da atividade econômica — especialmente ao mercado de trabalho ainda aquecido.
Na avaliação de Eduardo Tellechea Cairoli, CEO da Privatto Multi Family Office, a manutenção dos juros reafirma que o ciclo de flexibilização monetária tende a ser mais gradual do que parte do mercado projetava. “O principal recado é que o combate à inflação permanece como prioridade, mesmo que isso implique um período mais longo de política restritiva”, afirma.
De acordo com o analista, são esperados dois cortes de 0,25 p. p. nos EUA ao longo de 2026 — diferentemente de poucos meses atrás, quando a expectativa era de cortes maiores e menos espaçados. “Com a questão da inflação e do emprego ainda aquecido, tem se diminuindo o número de cortes previstos para os juros nos EUA ao longo deste ano”, acrescenta Cairoli.
No cenário internacional, os juros elevados em dólar mantêm o câmbio sensível aos movimentos de fluxo global e pressionam o custo de financiamentos externos. “Isso costuma afetar principalmente ações de crescimento, empresas mais sensíveis ao custo de capital e, também, mercados emergentes — que passam a competir com um retorno atrativo e de menor risco oferecido pela renda fixa em dólar”, pontua Cairoli.
Com juros elevados por mais tempo, a recomendação é de seletividade. “Uma carteira equilibrada é fundamental, pois a renda fixa em dólar segue oferecendo retornos interessantes com menor volatilidade, enquanto a renda variável tem perspectiva positiva para o ano, assim como o impacto dos investimentos privados”, avalia Cairoli.
A decisão do Fed também influencia o fluxo global de capitais. Para emergentes, o ambiente permanece competitivo na atração de recursos, reforçando o peso de políticas fiscais e monetárias responsáveis para sustentar a confiança dos investidores.
