O varejo mato-grossense esteve no centro do debate nesta quarta-feira, 11 de março, durante o Fórum de Varejo, realizado no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá. O encontro reuniu empresários, gestores e especialistas para discutir os impactos da inteligência artificial, da transformação digital e das mudanças no comportamento do consumidor sobre o comércio local.
A proposta do evento, iniciativa da Fecomércio e Senac/MT que tem como parceiro o Sebrae de Mato Grosso, foi lançar luz sobre um setor que, embora tradicional, vive um momento de forte reinvenção. Temas como omnicanalidade, hiperconectividade, gestão centrada no cliente, comunicação e uso estratégico de dados dominaram a programação e reforçaram a percepção de que o varejo já não concorre apenas com a loja vizinha, mas com operações nacionais e internacionais, inclusive gigantes do comércio digital.
Para o diretor técnico do Sebrae Mato Grosso, André Luiz Schelini, o varejo é um dos motores da economia estadual, justamente por reunir uma ampla diversidade de atividades. Segundo ele, o setor abrange desde pet shops, supermercados e lojas de materiais de construção até autopeças, mecânicas, comércios de moda, acessórios e estabelecimentos agropecuários.
“Eu diria para você que a diversidade não está só no tema, está na diversidade dos segmentos empresariais. O setor do varejo tem a maior diversidade de atividades econômicas. Em Mato Grosso, são mais de 550 mil CNPJs. Desses, 470 mil são do varejo, da atividade de comércio e serviço do nosso estado”, afirmou ao MT Econômico.
Schelini destacou que o fórum foi pensado para ampliar a visão do empresário e oferecer conteúdo que gere aplicação prática no dia a dia. “Nós estamos trazendo não só tendência, mas também atividade econômica, informações e conhecimento para o nosso empresário ampliar a visão, oportunizar crescimento e vantagens competitivas para desenvolver o seu negócio”, disse.
Ele também ressaltou que o evento marca o início de uma circulação desse conteúdo por outras cidades de Mato Grosso. “O Fórum de Varejo inicia hoje com as principais tendências da NRF e o Circuito do Varejo também começa neste mês em cidades do interior do estado, levando os conteúdos debatidos aqui, mas de forma prática, para que o empresário possa aplicar no dia a dia do seu negócio.”
Entre os temas centrais apresentados no encontro estão inteligência artificial, hiperconvergência, hiperconectividade, omnicanalidade, relacionamento com o cliente e comunicação. Para Schelini, o cenário atual exige atualização permanente. “A gestão do cliente nunca foi tão imperativa, porque ele está sendo assediado de diversas formas, redes sociais, TVs, mídias tradicionais, mídias impressas e boca a boca. Hoje, ele não compete só com o varejista do bairro ou da cidade, ele compete com quem está no Brasil, com quem está fora do Brasil e, principalmente, com quem está na China”, afirmou.
Ao tratar da necessidade de capacitação contínua, o diretor técnico defendeu que a atualização deve alcançar todos os níveis da atividade econômica. “A reinvenção é diária, desde o profissional de ‘chão de loja’ até quem é presidente. A reinvenção do conhecimento deve ser algo contínuo”, disse. Segundo ele, a proposta é fazer com que os empreendedores saiam do evento mais preparados, confiantes e seguros para enfrentar um mercado cada vez mais competitivo.
Uma das palestras mais aguardadas foi a da especialista em tecnologia e inovação Regiane Relva, que abordou as transformações observadas ao longo de 29 anos de acompanhamento da NRF, a National Retail Federation, feira realizada em Nova York e considerada uma das mais importantes do varejo mundial.
Regiane explicou que a inteligência artificial tende a mudar profundamente a jornada de compra. Segundo ela, o consumidor deixará de pesquisar apenas por características objetivas do produto e passará a comprar por contexto. “Antes, você comprava dizendo, ‘eu quero uma blusa laranja, de manga comprida’. Agora, o processo de compra mudou para o comércio agêntico. Você vai comprar por contexto. Vai dizer, por exemplo, que tem um evento em Cuiabá, numa quarta-feira à noite, e a inteligência artificial vai sugerir o tipo de roupa, buscar as lojas mais próximas, comparar preços, prazo de entrega e qualidade”, explicou à reportagem.
Para a especialista, essa mudança exigirá uma reestruturação profunda do varejo, especialmente na forma de integrar múltiplos canais de venda e organizar os próprios dados. Ela citou ainda a criação de um protocolo universal de troca de dados, adotado pelo Google nos Estados Unidos, como um movimento que pode impactar diretamente a forma de vender, anunciar e se posicionar nas plataformas digitais.
Ao mesmo tempo em que apontou oportunidades, Regiane também fez alertas sobre o uso indiscriminado da tecnologia e o compartilhamento excessivo de informações pessoais. “A inteligência artificial é uma ferramenta. A faca de cozinha também é uma ferramenta. Ela pode cortar alimentos, mas também pode matar uma pessoa. O que me preocupa hoje é o que nós vamos fazer com tudo isso que estamos criando”, afirmou.
Ela mencionou ainda o avanço de empresas de tecnologia sobre áreas como saúde e comportamento, reforçando a preocupação com a coleta massiva de dados pessoais. “Muitas vezes, estamos dando dados demais. As pessoas colocam exames, informações íntimas e rotina em plataformas sem saber exatamente para onde isso vai”, alertou.
Também presente no evento, o presidente da Fecomércio-MT, José Wenceslau Júnior, destacou a importância da parceria entre Fecomércio, Senac, Sesc e Sebrae para levar inovação ao comércio e fortalecer o empresariado em um momento de fragilidade do setor.
“Estamos trazendo inovação para o varejo. O varejo, neste momento, anda debilitado e a gente vem trazer uma injeção de ânimo, mostrar o futuro, tendências novas. Hoje se fala muito em inteligência artificial, e o empresário tem que adotar isso dentro da empresa dele, mas também precisa ter uma loja bonita, limpa e atendentes preparados para atender esse novo consumidor”, afirmou.
Segundo Wenceslau, o impacto da pandemia alterou de forma permanente o perfil do consumidor, hoje mais exigente e mais atento à experiência de compra. “O pós-Covid trouxe um novo consumidor. O empresário precisa renovar seus pensamentos, estar com a mente aberta para novas ideias”, disse ao MT Econômico.
Ele também reforçou que a inteligência artificial não deve ser vista como ameaça aos empregos, mas como uma ferramenta de apoio e transformação. “A inteligência artificial veio para somar. São novas profissões que vão surgindo. O empreendedor e os jovens precisam estar atentos a isso. Continuará gerando emprego, mas vamos precisar de gente qualificada para aprender a trabalhar com essa tecnologia.”
Também palestraram no evento Daniela Vadadão, country head da Pandora, abordando técnicas contemporâneas de liderança e Gisele Paula, cofundadora do ReclameAQUI e Instituto Cliente Feliz, trazendo insights sobre o que os clientes esperam do varejo, além do preço.
Ao fim do encontro, a mensagem predominante entre organizadores, palestrantes e representantes do setor foi a de que o varejo mato-grossense, embora diverso e numeroso, terá de ser cada vez mais ágil, integrado e preparado para lidar com um consumidor em constante transformação. Mais do que acompanhar tendências, o desafio agora é traduzi-las em prática, dentro das empresas, nas equipes e na relação com o cliente.


