A largada de 2026 encontra os mercados globais ainda orbitando em torno de um mesmo epicentro: a corrida pela liderança em inteligência artificial. O volume de investimentos em infraestrutura, chips, nuvem e modelos de linguagem nos Estados Unidos e na Ásia transformou o tema no principal vetor de risco e oportunidade para gestores ao redor do mundo.
A avaliação dominante é que o ciclo ainda está em fase inicial, mas já concentra um nível de capital que, se não se converter em produtividade e lucros, pode provocar ajustes relevantes nos preços dos ativos. O dilema, portanto, não é mais “estar ou não” exposto à tecnologia, mas “onde” se posicionar dentro da cadeia.
De um lado, empresas de aplicações e plataformas representadas no Brasil por BDRs como Alphabet (GOGL34) e Amazon (AMZO34); de outro, fabricantes de semicondutores e infraestrutura crítica, com destaque para a taiwanesa TSMC (TSMC34) e para a Nvidia (NVDC34).
“O grande desafio hoje é escolher em qual elo dessa cadeia você quer estar, porque a adoção ainda é preliminar, mas os valuations já embutem muito crescimento”, avalia Priscila Araújo, head de produtos e relacionamento da XP.
As análises fazem parte da nova temporada do podcast Carteiros do Condado, do Stock Pickers, comandado por Lucas Collazo e Davi Fontenele, analista de fundos da XP e publicados pela InfoMoney.
O debate sobre bolha também voltou à mesa. A comparação mais recorrente é com o período que antecedeu o estouro da Nasdaq em 2000.
“Em dezembro de 1996, Alan Greenspan já falava em ‘exuberância irracional’, e mesmo assim o índice ainda quadruplicou antes de cair. Talvez hoje estejamos mais parecidos com aquele início de ciclo do que com o final da bolha”, afirma a executiva, destacando que a inteligência artificial, diferentemente da internet nos anos 1990, já apresenta geração de caixa e aplicações concretas.
Outro movimento que ganhou tração é a busca por alternativas à escolha direta de vencedores, com parte dos investidores preferindo exposição ampla via índices.
“Se você compra o Nasdaq, alguma das grandes empresas vai capturar esse valor. É uma forma mais defensiva de participar da tendência sem apostar em um único nome”, observa Fontenele.
O PALCO DAS DISCUSSÕES E OS PROTAGONISTAS – Priscila destaca que a migração para uma função mais estratégica ajuda a compreender melhor as limitações impostas pelo ambiente atual.
“A volatilidade é maior, as correlações mudam rápido e o capital se move em blocos globais. Isso exige posições menores e controle de risco mais rigoroso do que no passado”, afirma.
OURO VIRA PROTAGONISTA – Se a inteligência artificial domina a agenda de crescimento, o outro grande tema quente é a busca por proteção.
Em 2025, o ouro registrou uma das maiores altas de sua história recente, impulsionado por compras recordes de bancos centrais, tensões geopolíticas e questionamentos sobre a sustentabilidade fiscal das grandes economias.
“O metal subiu mais do que bolsas e do que muitos ativos de risco, algo que não se via há décadas”, observa Fontenele.
A demanda institucional, especialmente de países que buscam reduzir dependência do dólar, coincidiu com o ingresso mais forte de investidores pessoa física, atraídos pelo movimento de alta.
A valorização também contaminou outros metais preciosos, como prata, platina e paládio. “Houve um choque simultâneo de oferta limitada e aumento de procura, tanto por reserva de valor quanto por uso industrial”, Priscila Araújo, head de produtos e relacionamento da XP.
Gestores passaram a acessar o tema não apenas via ETFs, mas também por meio de ações de mineradoras, que amplificam o movimento do metal.
“Essas empresas têm um beta maior em relação ao preço do ouro. Quando o metal sobe, os papéis tendem a subir ainda mais”, diz Fontenele.
DÓLAR FRACO, EMERGENTES FORTES E UM MUNDO MAIS DIFÍCIL DE PREVER – O pano de fundo para essas alocações é um cenário de dólar estruturalmente mais fraco e maior fluxo para mercados emergentes.
O índice DXY acumulou quedas relevantes em 2025, refletindo a rotação de reservas, o elevado endividamento americano e a busca por diversificação cambial.
“Partimos de um dólar historicamente caro e vimos uma correção acompanhada por valorização de moedas emergentes e asiáticas, especialmente em países com forte presença em tecnologia”, afirma Priscila.
Esse ambiente, no entanto, tornou a vida dos gestores mais complexa. Tensões geopolíticas, guerras comerciais, mudanças abruptas de política econômica e o avanço das estratégias quantitativas aumentaram a velocidade e a intensidade dos movimentos de mercado.
“Hoje, uma surpresa negativa que antes derrubava uma ação em 2% pode gerar quedas de 8% ou 10% em questão de minutos, porque algoritmos do mundo inteiro reagem em bloco”, observa a executiva.
Para ela, a combinação de inteligência artificial como motor de crescimento, metais preciosos como reserva de valor e um sistema financeiro mais sensível a choques geopolíticos reforça a necessidade de uma gestão mais flexível. “O mundo está menos previsível, mais fragmentado e com correlações instáveis. Isso exige menos apego a modelos do passado e mais capacidade de navegar mudanças de regime”, conclui.
