O endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril de 2026, o maior patamar da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), enquanto o número de inadimplentes já supera 74 milhões de pessoas, segundo a CNDL e o SPC Brasil. No meio do ano, porém, um problema menos visível começa a aparecer, o de famílias que não necessariamente estão endividadas descobrem que perderam o controle financeiro após meses de pequenos gastos, consumo pulverizado e falta de acompanhamento do orçamento.
Para Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira, planejamento do orçamento e reorganização de dívidas, o meio do ano é um dos períodos mais importantes para avaliar a saúde financeira das famílias. Segundo ele, após seis meses de decisões de consumo, parcelamentos e despesas recorrentes, muitas pessoas percebem que a renda continua entrando, mas a capacidade de poupar, investir ou construir patrimônio ficou pelo caminho.
“Grande parte das pessoas acredita que o problema financeiro aparece apenas quando faltam recursos para pagar as contas. Na prática, ele começa muito antes. O meio do ano oferece uma oportunidade de enxergar com clareza hábitos e comportamentos que passaram despercebidos nos meses anteriores”, afirma.
COMO FAZER UM CHECK UP FINANCEIRO ANTES DO SEGUNDO SEMESTRE? – Assim como exames periódicos ajudam a monitorar a saúde física, as finanças também precisam de avaliações regulares. Na avaliação do especialista, junho e julho oferecem uma fotografia importante sobre a relação das famílias com o dinheiro e permitem identificar excessos antes que eles se transformem em problemas maiores.
“Esse é um dos melhores momentos do ano para revisar a vida financeira. Ainda existe tempo para corrigir rotas, reorganizar prioridades e chegar ao final do ano em uma situação mais equilibrada”, explica.
Os quatro passos para avaliar a saúde financeira:
Descobrir para onde o dinheiro está indo: O primeiro passo do check up financeiro é entender exatamente como a renda foi utilizada ao longo dos últimos seis meses. A recomendação é reunir extratos bancários, faturas de cartão de crédito e registros de pagamentos para mapear despesas fixas, gastos variáveis, assinaturas, parcelamentos e compras recorrentes.
“Muitas pessoas sabem quanto ganham, mas não conseguem explicar para onde o dinheiro foi. Quando esse controle não existe, fica muito difícil tomar decisões financeiras mais eficientes”, afirma.
Medir o comprometimento da renda: Outro ponto importante é avaliar quanto da renda mensal já está comprometida com financiamentos, empréstimos, parcelamentos e demais obrigações financeiras.
Segundo o empreendedor e investidor, quando uma parcela significativa da renda já possui destino definido antes mesmo do início do mês, a capacidade de reagir a imprevistos ou criar uma reserva financeira fica reduzida.
Dados da CNC mostram que o cartão de crédito continua sendo a principal modalidade de endividamento das famílias brasileiras, presente em mais de 83% dos casos monitorados.
Avaliar se o patrimônio está evoluindo: Uma pergunta simples pode ajudar a identificar desequilíbrios financeiros: o patrimônio cresceu nos últimos seis meses?
A análise inclui aumento da reserva financeira, redução de dívidas, crescimento dos investimentos ou aquisição de ativos. Caso a renda tenha aumentado, mas o patrimônio permaneça estagnado, isso pode indicar que o consumo está absorvendo toda a capacidade financeira da família.
“Ganhar mais dinheiro nem sempre significa melhorar a vida financeira. O que realmente importa é a capacidade de transformar renda em patrimônio e segurança para o futuro”, explica.
Planejar os gastos que ainda virão: Depois do diagnóstico, o próximo passo é projetar as despesas previstas até dezembro. Férias, datas comemorativas, Black Friday e gastos tradicionais do início do ano seguinte devem fazer parte do planejamento.
Na avaliação do especialista, antecipar essas despesas reduz o risco de recorrer ao crédito de forma impulsiva e evita que o orçamento fique pressionado nos meses finais do ano.
“O erro mais comum é deixar para organizar as finanças quando o problema já apareceu. O meio do ano existe justamente para isso: analisar o que aconteceu até aqui e fazer os ajustes necessários antes que os desafios financeiros aumentem”, conclui.
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