Você já parou para pensar por que a América Latina permanece presa na armadilha da renda média enquanto a China realizou a maior transformação econômica da história moderna?
Nos anos 1980 e 1990, dois caminhos radicalmente diferentes foram escolhidos.
A América Latina abraçou a abertura comercial abrupta, privatizou empresas estratégicas e seguiu o ajuste fiscal ortodoxo do Consenso de Washington.
A China, por outro lado, escolheu a abertura gradual controlada, manteve estatais em setores estratégicos e apostou no planejamento de longo prazo.
Os resultados não poderiam ser mais dramáticos: enquanto a China tirou 800 milhões de pessoas da pobreza e se tornou a segunda maior economia do mundo, a América Latina estagnou, desindustrializou e viu sua complexidade econômica regredir.
O Brasil, especificamente, caiu de uma posição respeitável no índice de complexidade econômica para níveis comparáveis a economias exportadoras de commodities.
Hoje, vou mostrar por que o modelo neoliberal fracassou na América Latina e como a estratégia chinesa prova que existe um caminho alternativo para o desenvolvimento econômico.
Vamos mergulhar nessa história.
A receita neoliberal prometia prosperidade mas entregou estagnação
O Consenso de Washington dos anos 1990 vendeu um pacote completo: abra sua economia rapidamente, privatize tudo que for possível, corte gastos públicos e o mercado fará o resto.
A América Latina comprou essa narrativa completamente.
O Brasil liberalizou seu comércio de forma abrupta no governo Collor, reduzindo tarifas médias de 32% para 14% em apenas dois anos.
A Argentina foi ainda mais longe, chegando a fixar sua moeda ao dólar em paridade 1:1.
Empresas estatais estratégicas foram vendidas – telecomunicações, energia, mineração, bancos.
A promessa era clara: eficiência privada substituiria ineficiência estatal, investimento estrangeiro chegaria em massa, e a produtividade decolaria.
Mas o que realmente aconteceu foi bem diferente:
- A desindustrialização acelerou brutalmente. A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 27% em 1985 para 11% em 2019. A abertura abrupta expôs empresas locais a competição global sem dar tempo para que desenvolvessem capacidades competitivas.
- A complexidade econômica regrediu. O Brasil caiu no ranking mundial do Índice de Complexidade Econômica de uma posição relativamente alta nos anos 1980 para abaixo de países como Tailândia e Turquia. Nossa pauta exportadora voltou a ser dominada por commodities agrícolas e minerais.
- A armadilha da renda média se consolidou. Mesmo com reformas “corretas” segundo a ortodoxia, a América Latina não conseguiu fazer a transição para economias de alta renda. O crescimento médio da região entre 1990-2020 foi medíocre, especialmente quando comparado ao período 1950-1980.
A privatização, em particular, revelou-se um desastre em muitos casos – ativos estratégicos foram vendidos a preços baixos, monopólios públicos viraram monopólios privados, e os ganhos de produtividade não se materializaram como prometido.
A China escolheu o caminho inverso e transformou 800 milhões de vidas
Enquanto a América Latina seguia o manual neoliberal, a China estava escrevendo um roteiro completamente diferente baseado em gradualismo e pragmatismo.
A abertura comercial chinesa foi lenta, controlada e estratégica.
Começou com Zonas Econômicas Especiais em 1979 – áreas geográficas limitadas onde experimentos de mercado podiam ser testados sem comprometer toda a economia.
Shenzhen foi a primeira, seguida por outras quatro cidades costeiras. Apenas após ver que funcionava, o modelo foi gradualmente expandido.
A proteção tarifária foi reduzida devagar, dando tempo para empresas nacionais aprenderem e se desenvolverem. Subsídios estratégicos sustentaram indústrias nascentes em setores de alta tecnologia.
As estatais não foram privatizadas – foram reformadas e mantidas em setores considerados estratégicos:
- Energia e infraestrutura permaneceram sob controle estatal para garantir investimentos de longo prazo que o setor privado não faria.
- Bancos estatais direcionaram crédito subsidiado para setores prioritários identificados pelo planejamento central, algo impossível com bancos privados focados em rentabilidade de curto prazo.
- Empresas de tecnologia como Huawei e ZTE receberam apoio massivo do Estado chinês através de subsídios, crédito barato e proteção de mercado interno até estarem prontas para competir globalmente.
O resultado dessa estratégia foi espetacular.
O PIB per capita chinês cresceu de US$ 156 em 1978 para mais de US$ 10.000 em 2019 – um aumento de 64 vezes.
A participação da indústria de alta tecnologia nas exportações saltou de praticamente zero para mais de 30%.
A China passou de importador líquido de tecnologia para líder mundial em várias áreas como telecomunicações 5G, inteligência artificial e energia solar.
O sistema dual-track foi a inovação que o neoliberalismo nunca conseguiria aceitar
A grande sacada chinesa que Isabella Weber documenta brilhantemente foi o sistema dual-track: manter preços planejados para garantir estabilidade enquanto simultaneamente permite preços de mercado para incentivar produção adicional.
Funciona assim: empresas estatais recebem quotas de produção a preços fixos controlados, mas qualquer produção além da quota pode ser vendida a preços de mercado. Isso criou incentivos de mercado sem gerar o caos inflacionário e social da “terapia de choque” aplicada na Rússia e Europa Oriental.
Os economistas ortodoxos odiaram essa ideia – afinal, o manual neoliberal dizia que você precisa escolher: ou mercado ou planejamento.
A China provou que isso era falso. Durante os anos 1980, o sistema dual-track permitiu:
- Crescimento industrial explosivo porque empresas tinham incentivos para produzir mais além das quotas estatais.
- Estabilidade de preços em bens essenciais porque as quotas garantiam oferta básica a preços acessíveis para a população.
- Transição gradual para preços de mercado conforme a economia se desenvolveu, os preços planejados foram sendo eliminados setor por setor, sem choques.
Compare isso com a terapia de choque russa: liberação abrupta de preços, privatização rápida, colapso econômico brutal.
O PIB russo caiu 40% entre 1991-1998. A expectativa de vida caiu. Oligarcas compraram ativos estatais por centavos.
Foi um desastre humanitário de proporções épicas – e exatamente o modelo que o FMI recomendava para todos.
A China olhou para esse experimento e disse: não, obrigado. Vamos fazer do nosso jeito.
O planejamento de longo prazo venceu a obsessão com ajuste fiscal de curto prazo
Aqui está talvez a diferença mais fundamental: horizonte temporal.
A América Latina, seguindo o Consenso de Washington, ficou obcecada com ajuste fiscal trimestral, metas de inflação anuais e superávits primários.
O Brasil passou décadas cortando investimento público para cumprir metas fiscais que supostamente trariam confiança dos mercados.
O resultado foi a deterioração da infraestrutura, queda no investimento em educação e tecnologia, e estagnação do crescimento potencial.
A China fez o oposto – investiu massivamente mesmo acumulando dívida quando necessário:
- Infraestrutura de transporte: Construção de 40.000 km de ferrovias de alta velocidade desde 2008, conectando todas as grandes cidades e reduzindo custos logísticos dramaticamente.
- Educação e tecnologia: Gastos crescentes em P&D que saltaram de 0,6% do PIB em 1995 para 2,4% em 2019, superando a maioria dos países desenvolvidos.
- Desenvolvimento industrial: Subsídios estratégicos para setores de alta tecnologia identificados no plano Made in China 2025 – semicondutores, robótica, veículos elétricos, biotecnologia.
O planejamento quinquenal chinês define prioridades nacionais de longo prazo e mobiliza recursos públicos e privados para alcançá-las. Não é planejamento soviético rígido – é coordenação estratégica com flexibilidade tática.
Enquanto isso, o Brasil não consegue planejar além do próximo ciclo eleitoral porque qualquer aumento de gasto é atacado como irresponsabilidade fiscal.
A transformação estrutural exige Estado estratégico, não Estado mínimo
O caso chinês destroi a narrativa neoliberal de que desenvolvimento econômico requer Estado mínimo e confiança cega no mercado.
Transformação estrutural – a mudança de uma economia agrária para industrial e depois para serviços sofisticados – nunca aconteceu através de puro laissez-faire.
Todos os países desenvolvidos usaram protecionismo, subsídios e políticas industriais em seus estágios de desenvolvimento.
A Inglaterra protegeu sua indústria têxtil. Os EUA tinham tarifas altíssimas no século XIX. O Japão e a Coreia do Sul usaram planejamento estatal intensivo.
A China simplesmente seguiu esse padrão histórico em escala massiva e adaptado ao século XXI:
- Política industrial ativa: Identificação de setores estratégicos e mobilização de recursos para desenvolvê-los, algo que a América Latina abandonou nos anos 1990.
- Banco de desenvolvimento robusto: O China Development Bank fornece crédito de longo prazo para projetos estratégicos que bancos comerciais nunca financiariam.
- Absorção e inovação tecnológica: Exigência de transferência de tecnologia como condição para acesso ao mercado chinês, permitindo empresas locais aprenderem e eventualmente inovarem.
É claro que o modelo chinês tem problemas sérios – autoritarismo político, custo ambiental brutal, desigualdades regionais enormes.
Não estou romantizando a China. Mas os dados econômicos são inegáveis: em termos de transformação estrutural e redução de pobreza, foi o modelo mais bem-sucedido da história moderna.
A lição que a América Latina se recusa a aprender
Aqui está a verdade desconfortável: fomos vendidos uma mentira.
Nos disseram que mercado livre, Estado mínimo e abertura abrupta trariam prosperidade. Seguimos a receita à risca.
Privatizamos, liberalizamos, cortamos gastos. E o resultado foi desindustrialização, reprimarização da economia, e três décadas perdidas.
Enquanto isso, a China ignorou completamente o manual neoliberal – manteve estatais, protegeu mercado interno, subsidiou indústrias estratégicas, planejou longo prazo. E criou a maior transformação econômica da história.
A diferença não foi só de política econômica.
Foi de capacidade estatal, visão de longo prazo e coragem para rejeitar dogmas importados. A China tinha um Estado desenvolvimentista forte e pragmático.
A América Latina desmontou suas capacidades estatais justamente quando mais precisava delas.
O debate não deveria ser mercado versus Estado.
Deveria ser sobre que tipo de Estado queremos: um Estado estratégico que coordena transformação estrutural, ou um Estado mínimo que apenas garante contratos e estabilidade macroeconômica?
A história já respondeu essa pergunta. Resta saber se temos humildade para aprender com ela.
Por Paulo Gala
Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY.
