Como sentir a passagem do tempo observando o cotidiano em tempo real ao vivo e a cores? Início essa viagem dentro de uma perspectiva de recortes, considerando que perdi a conta de todas as vivências abrigadas nesse espaço urbano Cuiabano guardadas em minha memória.
Quando menina não precisei viajar para lugares distantes para saborear o prazer de assistir uma missa dominical em uma Catedral de claros e escuros ou altares laterais com imagens de santos barrocos, detalhes que mais tarde encontrei no Universo da Arquitetura a explicação detalhada de Fé e Arte, simbiose perfeita e única.
Ainda não entendia a magia do fator pertencimento que lugares e paisagens provocam em nossos corações e mentes.
Não tinha esta noção de leitura de lugares que anos do ofício de arquiteta a vida presenteou a mim; se estivesse com esta consciência saberia descrever com toda a certeza o significado da destruição da Antiga Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá como símbolo de uma modernidade que ao invés de conceber o resgate da memória de um lugar, plantava naquela época a semente de um vazio.
Nos acostumamos a colocar naquilo que perdemos uma substituição que signifique novas vertentes de sentir a vida.
A memória é tecida por vivências, fatos, ambientes e descobertas.
Certos lugares nos acolhem, nos abrigam das voltas que a vida dá.
Esse mesmo Centro de Visitas e passagens me abrigou em um momento que fiquei sem casa, pois, lar sempre carrego comigo para onde vou, a vida me ensinou a realizar essa mágica.
Então, pela Indicação de uma amiga, descobri um apartamento para alugar no Edifício mais icônico, localizado na Rua Cândido Mariano, Maria Joaquina, 10º andar.
Essa história cabe em outras histórias com relatos especiais, assim, vou registrar aqui neste momento a primeira impressão que merece registro.
Durante a semana o Centro tem uma dinâmica de vida incrível, puro movimento. Veículos, pessoas, comerciantes, funcionários municipais, a maioria, em um vai e vem constante.Quando chega aos sábados, à tarde, o Centro adormece de pessoas, somente veículos em suas bordas para destinos e locais para outros centros e lugares de Cuiabá.
O Centro Urbano é um material amplo de estudo, cada cicatriz na sua morfologia pode conter várias camadas de acontecimentos e ações que foram se agravando ao passar dos tempos resultantes das diversas ações humanas.
Se analisarmos através de registros fotográficos, vamos verificar que a passagem do tempo tem provocado um processo gradual de degradação deste sítio urbano que urge ações efetivas e seguras para provocar a sua permanência como lócus de uma sociedade saudável e humanizada, responsável pela preservação da sua história, valores culturais e artísticos, de forma a gerar ambientes de pertencimento e memória.
Bem próximo temos a massa ainda remanescente de uma vegetação bonita do Morro da Luz, que ao longo dos anos foi deixando de ser um oásis na paisagem urbana para se transformar em um cenário de não lugar, completamente invisível, engolido por prédios em deterioração explicita.
O Tempo vai inserindo na paisagem urbana elementos carregados de significados simbólicos de acontecimentos, fatos, mutações significativas que ora acrescentam e ora mutilam aquilo que deveria permanecer.
Essa paisagem urbana consolidada vai expressando todo um aspecto de historicidades de cada lugar.
Recordo-me das impressões que a minha saudosa Mãe se referia ao discorrer do lazer da sua época de adolescente na Praça Alencastro com o passeio no Jardim após a missa na Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, um acontecimento singular, reflexo de uma ingenuidade ímpar de conexão humana em um tempo no passado.
Se aprofundarmos por camadas, percebemos que nesse momento a segurança era um elemento Natural, a Rua era ambiente de extensão das casas cuiabanas, através das prosas nas calçadas sobre cotidiano e política. Na Rua Cândido Mariano, até um tempo atrás, existia o “ Senadinho“, reunião de homens anciões, proseando sobre tudo na política e acontecimentos triviais.
Fato cultural preservado, são as procissões religiosas que ainda persistem e unem em sintonia delicada conexões de pessoas de vários matizes e lugares uma profusão de compartilhamento e Fé.
Eclética e saudável, a Fé ainda consegue aproximar todas as cores e matizes sem sobressaltos.
Vivemos um ponto de Inflexão em como fazer a Fênix ressurgir na paisagem urbana contemporânea; como desenvolver um Plano Estratégico para trazer de novo uma ambientação urbana carregada de elementos novos que possam revitalizar de forma cirúrgica essa geografia urbana dilacerada e hostil.
Liberar de maneira segura o trajeto de pedestres em calçadas sombreadas, trazer a oxigenação da Rua através de um paisagismo que venha criar a perspectiva de luz e sombra através de suas copas, livres dos fios elétricos, todos ausentes, submersos por meio de cabeamento de fibra ótica e conceber mobiliários urbanos inteligentes.
Em síntese, não é uma tentativa de trazer de novo o que ficou perdido ao longo do tempo, mas, de elaborar de forma concisa uma nova perspectiva que traga bem estar, conforto urbano, qualidade de vida, usufruindo-nos das novas tecnologias sem descaracterizar o que é essencial.
Ana Rita Ribeiro Maciel é arquiteta
