A crescente preocupação com as mudanças climáticas e a busca por fontes de energia mais limpas têm impulsionado a transição global para a mobilidade elétrica. No Brasil, o mercado de veículos elétricos (EVs) tem apresentado um crescimento notável, refletindo uma tendência mundial de adoção de tecnologias mais sustentáveis. Contudo, para consumidores e revendedores, a decisão de investir em um Veículo Elétrico vai além dos benefícios ambientais e da economia de combustível; a perspectiva de revenda como produto usado é um fator crucial que influencia a decisão de compra e a saúde do mercado de seminovos. Enquanto os veículos a combustão interna (ICE), movidos a gasolina, álcool ou diesel, possuem um mercado de usados consolidado e previsível, os EVs ainda enfrentam desafios específicos que impactam sua desvalorização e aceitação no mercado secundário. A pergunta a ser respondida é, “o que eu faço para ter melhor valor de revenda quando for vender quando meu Veículo Elétrico?
É claro, essa pergunta é mesmo de difícil resposta, mas inevitável sua necessidade. Um dia o seu carro zero km será um carro usado no mercado para revenda. Dados recentes do mercado automotivo brasileiro, referentes aos anos de 2023 e 2024, indicam uma desvalorização média anual dos veículos elétricos superior à dos seus congêneres a combustão. Enquanto os EVs desvalorizam em média 8,44% ao ano, os veículos FLEX apresentam uma desvalorização de 6,01%, e os movidos a gasolina, 7,24%. Essa diferença se acentua em modelos específicos, com alguns EVs registrando quedas significativas em seu valor de mercado. Exemplos notáveis incluem o Renault Kwid E-Tech, que apresentou uma depreciação de 42,05%, e o Peugeot e-208 GT, com 40,77% de desvalorização. Em uma análise mais abrangente, estima-se que os veículos elétricos depreciem cerca de 13% mais do que os veículos a combustão ao longo de um período de cinco anos. Essa disparidade reflete a imaturidade do mercado de EVs usados e a percepção de risco por parte dos compradores e revendedores.
Diversos fatores contribuem para a maior desvalorização dos veículos elétricos no mercado de usados. A infraestrutura de recarga ainda limitada no Brasil é um dos principais entraves, gerando preocupações sobre a autonomia e a conveniência de uso dos EVs, especialmente em viagens mais longas. Outra questão relevante é a vida útil e o custo de substituição das baterias, que representam uma parcela significativa do valor total do veículo e cuja degradação ao longo do tempo é uma incógnita para muitos consumidores.
A rápida evolução tecnológica no setor de EVs também contribui para a obsolescência acelerada dos modelos mais antigos, à medida que novas gerações de baterias e sistemas de propulsão surgem com maior autonomia e desempenho. Além disso, o influxo de modelos elétricos chineses mais acessíveis tem aumentado a oferta no mercado, pressionando os preços dos veículos usados para baixo. Em contraste, os veículos a combustão se beneficiam de uma rede de postos de abastecimento amplamente estabelecida e de uma manutenção mais familiar e com custos previsíveis, o que lhes confere maior segurança e liquidez no mercado de seminovos.
Apesar dos desafios atuais, as perspectivas para a revenda de veículos elétricos tendem a melhorar à medida que o mercado amadurece. A expansão da infraestrutura de recarga, o desenvolvimento de baterias mais duráveis e eficientes, e a padronização de tecnologias podem mitigar as preocupações dos consumidores. Incentivos governamentais para a compra de EVs, tanto novos quanto usados, também podem impulsionar a demanda e estabilizar os valores de revenda. No longo prazo, a crescente demanda por sustentabilidade e a possível restrição à circulação de veículos a combustão em grandes centros urbanos podem fazer com que os EVs retenham seu valor de forma mais eficaz, superando a desvalorização inicial. A educação do consumidor sobre os benefícios e a manutenção dos veículos elétricos será fundamental para construir confiança e fortalecer o mercado de usados.
Atualmente, os automóveis elétricos enfrentam uma desvalorização mais acentuada no mercado de revenda em comparação com os veículos movidos a combustão. Contudo, o cenário é dinâmico e propenso a mudanças. Com o avanço da tecnologia, a expansão da infraestrutura e o amadurecimento do mercado, espera-se que a depreciação dos EVs se equilibre, tornando-os mais competitivos no segmento de usados. Para os revendedores de veículos seminovos e usados, é crucial realizar avaliações cautelosas, considerando as especificidades dos EVs, obedecer a ordem de precificação média do mercado e investir na educação dos seus colaboradores e vendedores para desmistificar o produto e facilitar a transição e aceitação do dele como um excelente negócio. Enfim, todo produto, independentemente de sua forma de energia, tem mercado, mesmo que seja específico, temos apenas de aprender a comprar, vender e a lidar com os consumidores, desta maneira otimizando o setor e aproveitando esse nicho de forma muito inteligente.
Ricardo Laub Junior é consultor de empresas com mais de 40 anos de estrada no setor automotivo. Especialista em gestão de lojas revendedoras de veículos novos e seminovos, já passou por todas as cadeiras: vendedor, gerente de revenda, diretor e proprietário. Também é liderança do setor, como Vice-Presidente da AGENCIAUTO/MT e Vice-Presidente do SINDERV/MT. Professor e produtor de conteúdo, com formação em Administração, História, Ciências Políticas e Empreendedorismo, além de Mestrado pela UFMT e MBAs.
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