O cenário político de Mato Grosso começa a se definir para 2026, e o setor automotivo — responsável por movimentar bilhões em giro econômico, empregos diretos e indiretos, com uma cadeia produtiva que vai do agronegócio ao varejo familiar — precisa ler com precisão técnica o que está em jogo. Não se trata de preferência partidária, mas de análise de risco regulatório, previsibilidade tributária e confiança do consumidor. Três nomes despontam com tração eleitoral reconhecida: Jaime Campos, Otaviano Pivetta e Wellington Fagundes. Cada um carrega um perfil distinto de governança, e isso se traduz em impactos concretos para concessionárias, revendas independentes e todo o ecossistema de veículos novos e seminovos.
O senador da República, Jaime Campos, representa a tradição política mato-grossense com experiência de governo e capilaridade no interior. Suas alianças observadas apontam para uma base consolidada no agronegócio e em partidos tradicionais. Para o setor automotivo, isso significa um cenário de governabilidade previsível, com foco provável em infraestrutura logística — elemento crítico para o escoamento de veículos e peças. No período pré-eleitoral, sua candidatura tende a reduzir moderadamente a cautela do mercado, pois é um nome conhecido. Caso vença, o impacto pós-eleição será diretamente proporcional à qualidade da coalizão formada: uma base ampla e estável favorece a manutenção de políticas de crédito e investimento; uma base frágil pode gerar instabilidade regulatória.
Otaviano Pivetta, Vice-Governador, encarna a tese da continuidade administrativa. Alinhado ao atual governo Mauro Mendes, sua candidatura sinaliza manutenção da máquina estadual e das diretrizes econômicas em curso. Esse é o cenário que mais agrada ao varejo automotivo em termos de previsibilidade. Antes da eleição, a volatilidade de mercado tende a ser menor, pois não há expectativa de ruptura brusca. O consumidor e o financiador mantêm a confiança. Após uma eventual vitória, o setor pode esperar estabilidade na tributação (ICMS, IPVA), continuidade nos programas de infraestrutura e um ambiente regulatório conhecido — fatores que permitem um planejamento de estoque, margem e expansão com horizonte mais longo.
Wellington Fagundes traz ao tabuleiro a força da articulação nacional. Com base parlamentar em Brasília e capilaridade partidária, sua candidatura pode significar maior acesso a recursos federais e influência em políticas macroeconômicas. No entanto, para o comércio local de veículos, esse perfil gera um comportamento de “wait and see” no período pré-eleitoral. O mercado fica em compasso de cautela e espera para entender qual será a agenda econômica estadual específica. Uma vitória de Fagundes poderia trazer benefícios em forma de obras federais e linhas de crédito especiais, mas também introduz um grau de incerteza sobre a prioridade que o governo estadual dará às demandas setoriais locais.
O comportamento do mercado: Antes e depois das urnas
Na reta final para a eleição, o setor automotivo costuma apresentar sinais claros:
Represamento de demanda: O consumidor pessoa física adia a troca do veículo, especialmente em faixas de preço mais altas.
Encolhimento do crédito: Instituições financeiras tornam-se mais conservadoras, elevando spread e exigindo mais garantias.
Gestão defensiva de estoque: Lojistas priorizam veículos de maior liquidez (seminovos populares) e reduzem exposição a modelos com giro mais lento.
Imediatamente após a definição do vencedor, o mercado reage à percepção de governabilidade: Se o eleito transmitir estabilidade e diálogo com o setor produtivo, há uma retomada rápida da confiança — o que se traduz em liberação de crédito, reaquecimento das vendas e recomposição de pátio. Se houver indefinição política, conflito na base aliada ou mensagens contraditórias sobre tributos, o período de cautela se prolonga, pressionando margens e alongando o ciclo de venda.
O papel estratégico da representação setorial
Nesse contexto, a atuação das entidades de classe como a AGENCIAUTO/MT, torna-se ainda mais crucial.
Cabe a ela:
1. Mapear as propostas dos candidatos para o setor de comércio e serviços.
2. Antecipar agendas de diálogo com as equipes de transição.
3. Defender a manutenção de um ambiente tributário estável que não onere artificialmente a cadeia de veículos. Garantir que a infraestrutura logística do estado continue a receber investimentos, beneficiando a distribuição de veículos e peças.
Mais que voto, é confiança
A eleição estadual em Mato Grosso não é apenas uma disputa política; é um termômetro de confiança para o setor produtivo. Para os revendedores de veículos novos e seminovos — que operam com alto capital de giro, dependem de crédito e são sensíveis ao humor do consumidor —, o resultado das urnas definirá o ritmo dos negócios nos próximos quatro anos. A aposta mais segura, do ponto de vista de mercado, sempre recai sobre o cenário que oferece maior previsibilidade e menor risco regulatório. Seja qual for o vencedor, a capacidade de governar com estabilidade e dialogar com o setor será o verdadeiro motor para o crescimento do comércio automotivo mato-grossense.
Ricardo Laub Junior é consultor de pessoas e empresas com mais de 40 anos de estrada no setor automotivo. Especialista em gestão de lojas revendedoras de veículos novos e seminovos, já passou por todas as cadeiras: vendedor, gerente de revenda, diretor e proprietário. Também é liderança do setor, como Vice-Presidente da AGENCIAUTO/MT. Professor e produtor de conteúdo, estudante de Psicanálise, com formação superior em Administração, História, Ciências Políticas e Empreendedorismo, além de Mestrado pela UFMT e MBAs.