O impasse em torno da Revisão Geral Anual (RGA) dos servidores públicos de Mato Grosso ganhou novos contornos políticos e institucionais com o anúncio de greve dos servidores do Poder Judiciário. A paralisação está prevista para começar na próxima quarta-feira (21) e amplia a pressão sobre o governo do Estado e a Assembleia Legislativa em meio ao atraso no envio do projeto que trata da recomposição salarial de 2026.
A categoria reivindica um reajuste de 6,8% nos salários, com abrangência para todas as classes e níveis, além de alterações no plano de carreiras. Para marcar o início do movimento, os servidores do Judiciário planejam uma marcha a partir das 8h pelas ruas do Centro Político Administrativo, em Cuiabá, com concentração em frente à Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT).
Segundo o presidente do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário de Mato Grosso (Sinjusmat), Rosenwal Rodrigues, a mobilização deve reunir não apenas trabalhadores do Judiciário, mas também representantes de outros órgãos, como Tribunal de Contas, Ministério Público e associações de analistas judiciários. A decisão pela paralisação foi tomada em reunião realizada na Federação Sindical dos Servidores Públicos de Mato Grosso (Fessp-MT), diante da falta de avanços nas negociações.
A reivindicação dos servidores do Judiciário se arrasta desde setembro do ano passado, quando o Tribunal de Justiça de Mato Grosso encaminhou à ALMT o Projeto de Lei nº 1.398/2025, prevendo o reajuste de 6,8% e ajustes na carreira. A proposta enfrentou sucessivos adiamentos após pedidos de vista apresentados por parlamentares e só foi aprovada em plenário no dia 19 de novembro.
No entanto, poucos dias depois, em 1º de dezembro, o governador Mauro Mendes vetou integralmente o projeto. O Executivo alegou ausência de estudos consolidados de impacto financeiro e falta de indicação de fonte permanente de custeio para sustentar o aumento. O veto foi analisado pela Assembleia no dia 3 de dezembro e mantido por votação secreta, com 12 deputados favoráveis à decisão do governo e 10 contrários.
A escalada de tensão no Judiciário ocorre paralelamente ao debate mais amplo sobre a RGA dos servidores estaduais. O governo sustenta que está legalmente impedido de conceder reajustes referentes aos anos de 2020 e 2021 em razão da Lei Federal nº 173/2020, editada durante a pandemia. Já os sindicatos defendem o pagamento do acumulado, que estimam em cerca de 19%.
Embora a recente sanção da Lei Complementar nº 226/2026 pelo presidente Lula tenha autorizado pagamentos retroativos de benefícios suspensos durante o período de calamidade, o governo de Mato Grosso ainda não sinalizou se pretende rever sua posição. Enquanto isso, a ausência do projeto da RGA na Assembleia e o avanço das mobilizações sindicais ampliam o desgaste político e reforçam o clima de incerteza entre os servidores públicos.
Com impacto estimado superior a R$ 1 bilhão em 2026, a definição da RGA tornou-se não apenas uma discussão orçamentária, mas um dos principais focos de tensão entre Executivo, Legislativo e categorias do funcionalismo. A greve anunciada pelo Judiciário adiciona um novo fator de pressão em um cenário que já se mostrava delicado e sem solução imediata.

