O Brasil encerrou 2025 com o maior número já registrado de empresas em Recuperação Judicial (RJ). Ao final do quarto trimestre, 5.680 companhias estavam em processo, o que representa um crescimento de 24,3% em relação ao fim de 2024, segundo dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial.
Mais do que uma “onda jurídica”, o avanço expressivo das recuperações é interpretado por especialistas como um sinal claro de estresse econômico e operacional. O aumento dos pedidos revela dificuldades crescentes de empresas para sustentar suas estruturas de capital, manter previsibilidade de caixa e honrar compromissos em um ambiente marcado por juros elevados, crédito restrito e margens cada vez mais pressionadas.
“Quando o número de recuperações cresce, o que está aumentando, na prática, é a incapacidade de parte relevante das empresas de sustentar sua rotina financeira. A RJ não começa no fórum, começa muito antes, com margens comprimidas, capital de giro alongado e decisões que vão sendo postergadas”, analisa Benito Pedro Vieira Santos, CEO da Avante Assessoria Empresarial.
CAMINHO ATÉ A RJ É PREVISÍVEL – De acordo com Benito, especialmente entre empresas de médio porte, é comum a adoção de um modelo de “sobrevivência” antes do pedido judicial: renegociação constante com fornecedores, parcelamento de tributos, crédito cada vez mais caro e informal e ausência de ajustes estruturais no negócio. “Forma-se um financiamento invisível, que só posterga o problema até o mercado parar de conceder crédito”, afirma.
Nesse contexto, a Recuperação Judicial acaba sendo acionada como último recurso. O risco, segundo especialistas, é tratá-la como solução isolada. “Recuperação judicial sem reestruturação do negócio é apenas o adiamento da falência”, alerta Benito.
CRÉDITO CARO E INSTABILIDADE AMPLIAM CRISE – Para Denis Barroso, advogados especialista em recuperação empresarial, o recorde de 2025 está inserido em um cenário mais amplo de instabilidade econômica global. “O mercado brasileiro, assim como outros países, ainda enfrenta os efeitos do pós-pandemia, conflitos internacionais e, mais recentemente, novas taxações. Muitas empresas sobreviveram nos últimos anos operando no vermelho e recorrendo a empréstimos para evitar o fechamento”, explica.
Segundo Denis, esse modelo baseado em endividamento prolongado se torna cada vez mais arriscado em um ambiente de crédito caro e seletivo, o que acaba empurrando empresas para a recuperação judicial.
O início de 2026 indica que o tema seguirá em evidência. O pedido de recuperação judicial da Fictor Holding Financeira, com compromissos que somam cerca de R$ 4 bilhões, tornou-se um dos primeiros grandes alertas do ano. A empresa atribuiu a crise à repercussão negativa envolvendo a tentativa frustrada de aquisição do Banco Master, episódio que impactou contratos, fluxo operacional e a confiança do mercado.
O caso se soma a diversos outros registrados ao longo de 2025 e reforça a percepção de que as fragilidades acumuladas nos últimos anos ainda não foram absorvidas pela economia, mantendo elevado o risco para empresas de diferentes setores.
RJ EXIGE ESTRATÉGIA E MÉTODO – Apesar de ser um instrumento legal relevante, especialistas reforçam que a recuperação judicial só gera resultados quando integrada a um plano consistente de reestruturação. “Nenhuma empresa está imune a problemas financeiros. Investir em controles, gestão adequada e governança é fundamental para identificar vulnerabilidades e corrigir rotas antes que a crise se agrave”, destaca Denis Barroso.
Na prática, a reversão do cenário passa por medidas simultâneas, como gestão rigorosa do caixa, revisão de margens e preços, controle de capital de giro, redimensionamento criterioso de custos e elaboração de planos de credores alinhados à real capacidade de geração de caixa.
ALERTA PARA EMPRESAS EM 2026 – O recorde de recuperações judiciais em 2025 deve ser lido como um alerta ao ambiente empresarial brasileiro. Em um mercado menos tolerante a improvisos, empresas que não operam com visibilidade, disciplina e rapidez na tomada de decisão tendem a ser penalizadas.
“A recuperação judicial pode oferecer tempo, mas tempo sozinho não recupera empresa. O que recupera é método, governança e execução disciplinada, capazes de transformar a janela jurídica em reorganização econômica real”, conclui Benito Pedro.
Para 2026, a expectativa é de que o tema continue no centro do debate, exigindo das empresas uma postura mais estratégica, preventiva e profissional para atravessar o período de instabilidade e sair fortalecidas.

