A inteligência artificial deixou de ser tema de futuro distante e passou a ser eixo estratégico do presente para o varejo e para o movimento lojista. Essa foi a tônica do Encontro de Líderes – Rota 2026, promovido pela Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso (FCDL-MT), realizado nessa semana, em 19 de março, no Espaço CDL Cuiabá, com a presença de presidentes e dirigentes de CDLs de todo o estado.
O MT Econômico traz nessa matéria especial um tema contemporâneo ao mercado empresarial. O evento teve como destaque a apresentação da CDL IA, plataforma de inteligência artificial do sistema CNDL voltada exclusivamente para negócios do segmento do comércio e serviços. Desenvolvida em consórcio com empresas de tecnologia e já disponível para 1.600 entidades em todos os 27 estados, a ferramenta foi detalhada por Carlos Ávila, um dos seus criadores. Segundo ele, a CDL IA coloca pequenas e médias empresas “no mesmo patamar tecnológico das grandes corporações”, ao oferecer a mesma base de IA, agora especializada na realidade do varejo brasileiro.

Diferentemente de soluções genéricas, a CDL IA é uma IA corporativa, treinada com contexto de negócios e com mais de 250 “especialistas virtuais” em áreas como crédito, vendas, marketing, gestão financeira e operações. A plataforma combina duas metodologias-chave: contexto (bases de conhecimento específicas) e prompts bem estruturados (bons comandos), o que reduz o risco de respostas superficiais ou equivocadas. Na prática, o empresário associado pode utilizar a ferramenta para elaborar campanhas, revisar contratos, desenhar políticas de crédito e cobrança, estruturar processos internos e até criar conteúdos personalizados para redes sociais – com atualizações mensais. “A inteligência artificial serve para 100% dos associados das CDLs. É uma janela única de oportunidade para visitar toda a base e entregar valor real”, destacou Ávila, ao lembrar que hoje a plataforma não tem concorrente direto no Brasil.
Antes da imersão em tecnologia, o consultor especialista em associativismo do sistema CDL Fábio Granja trouxe um diagnóstico contundente sobre a gestão das entidades. Com quase 16 anos de atuação no sistema, sendo cerca de 14 como superintendente da CDL Cuiabá, Granja apresentou dados de pesquisa com CDLs mato-grossenses que revelam um cenário paradoxal: o movimento tem alta credibilidade e tradição, bom relacionamento com o poder público e entidades estruturadas, mas enfrenta forte desinteresse do empresariado pelo associativismo, dependência de poucos produtos (especialmente consultas ao SPC) e dificuldade de reter associados.
Para ele, o caminho passa por virar a chave de “vender consultas” para “vender inteligência”. Em vez de oferecer apenas produtos avulsos, as CDLs precisam apoiar o empresário na construção de políticas de crédito, funis de vendas, réguas de cobrança e educação em gestão. Granja também apontou a falta de planejamento estratégico, o baixo uso de dados e a ausência de ritos de acompanhamento como gargalos críticos. “Credibilidade sem entrega perde valor com o tempo. Se queremos transformar credibilidade em resultado, precisamos de estratégia, disciplina e foco nas dores reais do empresário”, afirmou.
O presidente da FCDL de Santa Catarina, Onildo Dalbosco Júnior, reforçou a importância da gestão corajosa e orientada a resultados ao relatar a experiência catarinense. Ele resgatou a metáfora de “separar o joio do trigo” ao assumir a federação em um momento de rota de colisão financeira e institucional. Após um período de compreensão profunda de processos e cultura interna, Dalbosco tomou decisões duras, como a demissão de 15 colaboradores, incluindo profissionais com mais de 20 anos de casa, para adequar a equipe ao novo modelo de trabalho.
As mudanças, baseadas em missão, visão, valores e planejamento estratégico, permitiram à FCDL-SC expandir a atuação para 210 CDLs, fortalecer núcleos setoriais e empresariais em parceria com o Sebrae e ultrapassar a marca de 46,5 mil associados. “A pior decisão é a omissão. Quem assume uma entidade precisa ter coragem para corrigir a rota, mesmo que isso custe decisões impopulares”, salientou o dirigente, enfatizando que presença capilar, governança e projetos estruturados transformaram a federação catarinense em referência nacional.
Em comum, as três falas apontam para uma mesma direção: a sustentabilidade do sistema CDL dependerá da capacidade de unir tecnologia, dados e gestão profissional. A CDL IA surge como ferramenta concreta para modernizar o dia a dia dos empresários e das próprias entidades, enquanto as reflexões de Fábio Granja e Onildo Dalbosco Júnior lembram que nenhuma plataforma tecnológica substitui planejamento, governança e foco nas pessoas.
Para os empresários do comércio, a mensagem é clara: a inteligência artificial não é mais opcional e pode ser aliada direta na competitividade do negócio. Para as CDLs, o recado é ainda mais direto: quem conseguir transformar dados em inteligência, e inteligência em resultado para o associado, continuará relevante no novo ciclo do varejo brasileiro.
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