A Câmara de Comércio Italiana de São Paulo (ITALCAM-SP) inaugurou nesta segunda-feira (4), em Cuiabá, a sua representação em Mato Grosso, a ITALCAM-MT. A nova delegação nasce com a missão de funcionar como “janela operativa” do chamado Sistema Itália no estado, aproximando empresas italianas e mato-grossenses em um momento considerado histórico para o comércio exterior: a entrada em vigor, na última sexta-feira (1º), do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que reduz a zero as tarifas de milhares de produtos brasileiros exportados ao bloco europeu.
Cônsul-geral da Itália em São Paulo, Domenico Fornara ressaltou em entrevista ao MT Econômico que a presença da Câmara em Mato Grosso é estratégica, especialmente diante do novo cenário regulatório. “Depois de um período de estudo, conseguimos finalmente abrir uma janela muito importante e operativa do sistema Itália, que é a Câmara de Comércio, que pode fazer a facilitadora para os negócios”, afirmou. Segundo ele, com o acordo Mercosul–União Europeia, “estamos abrindo muitas janelas de oportunidade para os nossos negócios, com duas economias, a italiana e a brasileira, perfeitamente compatíveis e complementares”.
O tratado, em aplicação provisória pela União Europeia, cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, conectando mercados que somam mais de 700 milhões de consumidores. Na prática, mais de 80% das exportações brasileiras para a Europa passam a ter tarifa de importação zerada já nesta primeira fase, incluindo mais de 5 mil produtos – a maior parte bens industriais, como máquinas e equipamentos, alimentos, materiais elétricos, produtos químicos e itens de metalurgia. Para os entrevistados, esse ambiente favorece especialmente estados exportadores e com forte vocação agroindustrial, como Mato Grosso.
Fornara destacou que a complementaridade entre Brasil e Itália se expressa, de um lado, na tecnologia italiana e, de outro, nas commodities e insumos brasileiros. “Um investimento extremamente importante, especialmente no setor do agro, no qual a Itália tem muita tecnologia e muitos maquinários importantes para o desenvolvimento aqui. Mas o Brasil tem muitas commodities, terras raras, que a gente necessita”, declarou. O cônsul também apontou a transição energética como frente promissora, com foco em biocombustíveis: “É um setor no qual o Brasil já desenvolveu tecnologia muito interessante, que pode ser uma solução também para as necessidades da Itália”.
Para o presidente da Câmara de Comércio Italiana em São Paulo (ITALCAM-SP), Graziano Messana, a escolha por Cuiabá se justifica pela concentração de grandes players do agro e pelo movimento local de verticalização da produção. “Mato Grosso para nós significa concentrar a excelência da indústria do agro e aproveitar dessa janela da aprovação do Acordo União Europeia–Mercosul para poder trazer tecnologia e maquinários italianos, aproveitando de uma tarifa que foi reduzida a 0% a partir do dia 1º de maio”, explicou à reportagem. “Trazer tecnologia para transformar o produto agrícola significa, para a região do Mato Grosso, sair do papel de produtor de commodities e se tornar um Estado que consiga transformar esse produto para poder competir.”
Messana adiantou que a estratégia passa também por levar empresários mato-grossenses à Itália para contato direto com inovação. Em novembro, a ITALCAM pretende levar uma comitiva à feira EIMA, em Bolonha, referência mundial em tecnologia agrícola. “Aqui tem empresário que tem realmente tamanho de fazendas que na Itália não existem. Então, imaginamos nano e micro irrigação, uso da água de forma bem atenta, como tudo isso pode beneficiar a agricultura local”, disse, citando ainda oportunidades em cadeias agroalimentar, agroindustrial e têxtil. “Nós estamos aqui para fazer negócio… a nossa ideia é realmente ficar próxima da comunidade empresarial.”
Do lado da representação mato-grossense, o conselheiro da ITALCAM-MT, Jandir Milan, vê na nova estrutura um instrumento para ampliar a inserção internacional das empresas locais, em especial micro e pequenos negócios. “O Mato Grosso está num desenvolvimento que precisa de parceiros com maior experiência que a gente. A Itália tem uma experiência muito grande no desenvolvimento de tecnologias, no desenvolvimento do comércio exterior, de micro e pequenas empresas, que nós não temos no Brasil hoje. Praticamente toda exportação é feita por grandes empresas”, observou.
Milan acredita que a combinação entre a Câmara Italiana e o acordo Mercosul–União Europeia tende a destravar investimentos. “Essa parceria com a ITALCAM, que abriu a nossa filial aqui em Mato Grosso, é de grande importância para o desenvolvimento do comércio, da indústria e dos serviços no estado”, afirmou. “Com o acordo do Mercosul, a redução da alíquota de importação reduziu praticamente a zero. Isso vai ser muito importante para nós equiparmos nossas indústrias. Tenho certeza que o ganho vai ser tanto por parte da Itália como por parte do Mato Grosso.”
Delegado da Câmara Italiana em Mato Grosso (ITALCAM-MT), André Schelini ressaltou ao MT Econômico, a dimensão histórica e simbólica da nova fase da relação Italo-brasileira no estado, marcado pela presença de imigrantes e descendentes. “São 150 anos de história desde a imigração italiana ao Brasil. Muitos vieram na crença de que dias melhores viriam. Mato Grosso tem um pouco dessa história, que muitos que aqui vieram, vieram com a esperança de dias melhores”, lembrou. Para ele, a ITALCAM-MT consolida uma “história de complementariedade, uma história de possibilidades de negócios”.
Schelini enfatizou que o acordo Mercosul–União Europeia projeta Mato Grosso em um mercado de escala global. “Agora, com o advento do acordo, abrem-se novas oportunidades para um mercado consumidor de mais de 720 milhões de pessoas. São mais de 5 mil produtos que temos com facilitação de negócios. Mais de 98% daquilo que o Brasil já exporta tem taxa zero de alíquota de exportação com importação na Itália”, explicou. “É uma nova janela de oportunidades. Estamos aqui celebrando parcerias com entidades do setor produtivo, entidades públicas, prefeituras, todos com essa possibilidade de abrir um caminho novo para Mato Grosso na sua internacionalização.”
Embora a implementação do acordo seja gradual para setores considerados sensíveis – com prazos que podem chegar a 10 anos na União Europeia e 15 no Mercosul –, o movimento já é visto por entidades empresariais como um divisor de águas. No caso da indústria, quase 3 mil produtos têm tarifa zerada desde já, com destaque para máquinas, equipamentos e bens de maior valor agregado, exatamente o tipo de integração produtiva que a ITALCAM diz querer estimular em Mato Grosso.
Na avaliação de Schelini, o estado tende a colher ganhos econômicos amplos se souber aproveitar esse contexto. “Sem dúvida, [a nova delegação] vai movimentar ainda mais a economia mato-grossense, acelerar a diversificação, trazer investimento, novos setores econômicos à nossa matriz produtiva. É uma janela de oportunidades em várias perspectivas. Estamos muito felizes e otimistas”, concluiu.

