A transformação de Mato Grosso de grande exportador de commodities em polo industrial, tecnológico e referência em conhecimento de produção pautou o Fórum Economia e Desenvolvimento Institucional, realizado pelo LIDE-MT, ontem (14), em Cuiabá. Lideranças políticas e empresariais defenderam que o Estado use a força do agronegócio para agregar valor, fortalecer a indústria e distribuir melhor a riqueza em municípios estratégicos, como Sorriso entre outros com vocação produtora.
O MT Econômico traz aos leitores um resumo de alguns painelistas que abordaram assuntos relacionados a economia de Mato Grosso.
Wilson Santos: de “celeiro do mundo” a arquiteto da matriz alimentar global
O deputado estadual Wilson Santos abriu o evento propondo uma reflexão de longo prazo: “Que Mato Grosso a gente quer daqui a 25 anos?”. Ele resgatou a história econômica do estado – do extrativismo do ouro e da pecuária a ciclos industriais como usinas de açúcar e produção de charque – para afirmar que Mato Grosso vive hoje, plenas condições para avançar na industrialização.
Para o parlamentar, o estado reúne os insumos necessários para dar o salto: matéria-prima em abundância, segundo maior potencial hidrelétrico do país, energia excedente, mão de obra capacitável e acesso a linhas de financiamento. “Nós vamos ficar eternamente na produção de commodities? Produzimos produtos baratos. Podemos transformar esses produtos baratos, agregar valor, gerar emprego com melhor qualidade, salários melhores”, disse. O parlamentar defendeu uma trajetória em etapas rumo à industrialização: desenvolvimento de manufatura básica, expansão de serviços sofisticados de alto valor agregado, inovação tecnológica e, por fim, formação de um capital financeiro forte, com mercado maduro e capacidade de controlar o capital global. Wilson alertou para o risco de Mato Grosso se tornar “apenas uma base produtiva padronizada, operada e controlada pelo capital externo”, repetindo a dependência histórica do Brasil do mercado internacional.
Como meta, propôs que o estado seja líder global em agro e bioeconomia e se estabeleça como principal centro de inovação do hemisfério sul. “O futuro de Mato Grosso não é ser apenas o celeiro do mundo, é ser um arquiteto financeiro e tecnológico que governa a matriz alimentar global”, concluiu.
Sílvio Rangel: indústria cresce, mas esbarra em juros altos e pouco crédito
O presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), Sílvio Rangel, apresentou dados que mostram a expansão da indústria no estado. Segundo ele, o setor industrial está presente em 140 dos 142 municípios, com mais de 16 mil estabelecimentos e cerca de 197 mil empregos formais. Nos últimos dez anos, o PIB industrial cresceu 266% e já responde por 16% do PIB estadual, em torno de R$ 36 bilhões, com destaque para alimentos e bebidas, construção civil, serviços industriais, água, energia, derivados de petróleo e biocombustíveis. Rangel enfatizou o papel da agroindústria como motor da industrialização, em especial o etanol de milho. Em oito anos, Mato Grosso saiu da sétima para a segunda posição nacional em produção, com oito usinas em construção. “O vetor hoje de crescimento e desenvolvimento da indústria é a agroindústria, agregando mais valor à produção do campo”, afirmou. Apesar do desempenho, ele apontou entraves importantes.
Pesquisa da CNI mostra que, em 2025, 72% das indústrias investiram, mas apenas 36% conseguiram executar os investimentos como planejado, devido a incertezas econômicas, queda de renda das famílias e juros elevados. Para 2026, 56% das empresas pretendem investir, mas a taxa de juros é a principal barreira, levando 33% a recorrer apenas a recursos próprios. Rangel lembrou ainda que Mato Grosso recebeu R$ 23,5 bilhões da Nova Indústria Brasil – 3,6% do total nacional – e que só 6% dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) contratados no estado vão para o desenvolvimento industrial. “Nós precisamos aumentar esse percentual”, cobrou.
O líder industrial citou também o impacto de fatores externos, como conflitos no Oriente Médio, alta do petróleo e do gás, volatilidade do dólar e risco de escassez de fertilizantes, que podem afetar cadeias como etanol de milho e soja. Internamente, destacou a reforma tributária ainda em fase de teste, com efeitos incertos para estados exportadores e com déficit de infraestrutura como Mato Grosso, que, apesar de grande capacidade de geração de energia, ainda sofre com redes monofásicas em várias regiões.
Em resposta, Fiemt e parceiros têm investido em qualificação: 50 mil pessoas foram formadas em três anos, e 20 mil jovens do ensino médio sairão com curso técnico. A previsão da entidade é de crescimento de 5,9% da indústria em 2025, ante 1,5% do PIB estadual.
Sorriso: potência do agro busca transformar produção em qualidade de vida
O prefeito de Sorriso, Alei Fernandes, levou ao Fórum a experiência do município como um dos principais polos do agronegócio do país. Segundo ele, a cidade produz cerca de 600 mil hectares de soja e algodão na primeira safra e outros 680 mil hectares na segunda safra, consolidando a região do eixo da BR-163 – que inclui Sinop, Lucas do Rio Verde e Nova Mutum – como referência em produtividade. “Hoje nós temos safra e safrinha completas”, resumiu. Alei, porém, destacou que o volume de produção não elimina desafios sociais.
De acordo com ele, 33% de todo o capital do município está concentrado nas mãos de poucas pessoas. “O resto também é um desafio”, disse, ao lembrar que Sorriso ainda convive com falta de vagas em creches, pressão sobre a saúde, violência contra a mulher e demandas por habitação e infraestrutura. O município cresce entre 6% e 7% ao ano, o que, na prática, significa incorporar, anualmente, o equivalente a uma nova cidade de 10 a 15 mil habitantes. “Todo ano falta vaga de creche, falta sala de aula, falta consulta no posto de saúde”, afirmou.
ZDA e “Sorriso Inovador”: atração de investimentos e empreendedorismo
Para converter o potencial agrícola em desenvolvimento econômico e social, Sorriso tem apostado em políticas para atrair investimentos e estimular inovação. O prefeito destacou a criação da primeira Zona de Desenvolvimento do Agro (ZDA) do Brasil, no município, um pacote de incentivos municipais e estaduais, com apoio federal, voltado à instalação de empresas ligadas ao agronegócio e à industrialização. “É para que o empresário possa dizer ‘lá eu vou investir, lá é possível’”, explicou.
O município também desenvolve o programa “Sorriso Inovador”, voltado ao fortalecimento do empreendedorismo e à geração de empregos qualificados. Alei frisou que, além de mão de obra, é preciso “coragem de quem tem CNPJ” para investir, gerar de centenas a milhares de postos de trabalho e sustentar o ciclo de crescimento local. Nesse contexto, ele defendeu a articulação permanente com governo estadual, governo federal e Assembleia Legislativa para viabilizar obras de logística, energia e serviços públicos.
O prefeito aproveitou o fórum para anunciar que Sorriso será sede, em julho, de um grande encontro internacional do agronegócio, ligado ao GAF – Global Agribusiness Fórum, e convidou empresários e lideranças a conhecerem de perto a realidade do município. “O desafio é transformar toda essa produção em mais valor para as pessoas, com maior qualidade de vida”, resumiu.
