O mercado automotivo brasileiro tem testemunhado uma transformação significativa com a ascensão dos veículos de origem chinesa. De acordo com os dados mais recentes da Fenabrave (até março/2026), a BYD ocupa a 6ª posição no ranking geral de emplacamentos de veículos leves, com a fatia de 8,2% do mercado brasileiro. No acumulado do ano, foram 45.300 unidades emplacadas, crescimento de +145% se comparado a 2025. Líder absoluta em elétricos e híbridos, superando as tradicionais Volkswagen e Fiat em EVs. Em 2025, a participação de mercado desses fabricantes atingiu aproximadamente 10%. O volume total de vendas no país alcançou 2,5 milhões de unidades, representando um crescimento de 2,6% em relação ao ano anterior.
Este cenário de expansão nacional se reflete de maneira particular em Mato Grosso, um Estado cuja economia registrou um robusto crescimento de 56% nos últimos anos, impulsionando o consumo e a demanda por bens duráveis, incluindo automóveis. A chegada massiva e estratégica dos carros chineses, com propostas de valor agressivas e tecnologia embarcada, levanta questões cruciais sobre o impacto no comércio local de veículos, tanto novos quanto usados, exigindo uma análise aprofundada das dinâmicas de mercado e das estratégias de adaptação necessárias para os revendedores mato-grossenses.
Os fabricantes chineses no segmento de veículos novos têm gerado uma intensa competição, principalmente no que tange à precificação. Modelos com tecnologias avançadas e pacotes de equipamentos completos são oferecidos a valores que desafiam as montadoras tradicionais, forçando uma reavaliação das estratégias de mercado.
A dominância chinesa é particularmente notável nos segmentos de veículos elétricos (EVs) e híbridos, onde a expertise e a escala de produção asiática permitem ofertas mais competitivas e uma gama mais ampla de opções, acelerando a transição energética do parque automotivo brasileiro. Dados da Fenabrave de 2025 indicam que, embora as marcas tradicionais ainda liderem em volume geral, a taxa de crescimento dos emplacamentos de veículos eletrificados é impulsionada majoritariamente pelos modelos chineses.
Essa pressão competitiva não se restringe apenas ao preço final. A agilidade na introdução de novos modelos, a inovação em design e a rápida adaptação às preferências do consumidor brasileiro são fatores que as montadoras chinesas têm explorado com sucesso. Em resposta a essa dinâmica, observa-se um movimento de pactuação entre países como Brasil e Argentina, visando proteger a indústria automotiva regional e mitigar a pressão exercida pela crescente importação de veículos chineses.
Para as revendas em Mato Grosso, o desafio reside em como posicionar os veículos de marcas tradicionais frente a essa nova concorrência. É fundamental que os concessionários locais invistam na diferenciação por meio de serviços agregados, programas de fidelidade, e na valorização da história e da confiabilidade das marcas já estabelecidas, além de considerar, no caso do carro usado e lojas multimarcas, a inclusão estratégica de modelos chineses em seus portfólios para atender à demanda crescente por essas opções. O segmento de veículos usados e seminovos é, talvez, o mais suscetível aos efeitos da proliferação dos carros chineses. A maior preocupação das lojas multimarcas é a depreciação acelerada do estoque geral, impulsionada pela queda nos preços de veículos novos, provocada, especialmente nos modelos chineses, que ainda, também desvalorizam rápido. Historicamente, marcas novas ou com rede de assistência fraca perdem mais na revenda. Fatores como escassez de peças a longo prazo, altos custos de manutenção e baixa percepção de revenda agravam isso. O risco é real atine os novos tradicionais e para seminovos em geral: Quando há um colapso de valores de mercado, afetando capital de giro e rentabilidade das revendas que, geralmente, os aceitam trocas nas negociações.
A AGENCIAUTO/MT, atenta a essa realidade, tem defendido a importância da procedência e da certificação de qualidade para os veículos usados de marcas tradicionais. A entidade ressalta que a confiança do consumidor na durabilidade, na rede de serviços e na liquidez de revenda dos veículos de marcas consolidadas continua sendo um diferencial competitivo, a estratégia deve focar na valorização dos atributos dos veículos tradicionais, oferecendo garantias estendidas, histórico de manutenção comprovado e programas de certificação que atestem a qualidade e a segurança dos seminovos. Além disso, é crucial que as revendas desenvolvam expertise na avaliação de veículos chineses, compreendendo suas particularidades de mercado para evitar riscos excessivos e para orientar os clientes sobre as implicações da depreciação e da revenda desses modelos.
A ascensão dos carros chineses representa um desafio multifacetado e uma oportunidade de adaptação para o comércio mato-grossense de veículos. No mercado de novos, a competição por preço e a inovação tecnológica exigem que as revendas tradicionais reavaliem suas estratégias, focando em valor agregado e, possivelmente, integrando seletivamente modelos chineses em seus portfólios.
No segmento de usados e seminovos, a rápida depreciação e as incertezas de revenda dos veículos chineses demandam uma postura proativa das revendas, que devem reforçar a procedência e a certificação de qualidade dos veículos de marcas tradicionais como um diferencial inegável. A AGENCIAUTO/MT desempenha um papel crucial na orientação e defesa dos interesses dos revendedores, promovendo a educação do mercado e a adoção de práticas que garantam a sustentabilidade do setor. A capacidade de adaptação, a busca por diferenciação e a compreensão aprofundada das novas dinâmicas de mercado serão determinantes para o sucesso e a resiliência do comércio automotivo em Mato Grosso frente a esta nova era.
Ricardo Laub Junior é consultor de pessoas e empresas com mais de 40 anos de estrada no setor automotivo. Especialista em gestão de lojas revendedoras de veículos novos e seminovos, já passou por todas as cadeiras: vendedor, gerente de revenda, diretor e proprietário. Também é liderança do setor, como Vice-Presidente da AGENCIAUTO/MT e do SINDERV/MT. Professor e produtor de conteúdo, estudante de Psicanálise, com formação superior em Administração, História, Ciências Políticas e Empreendedorismo, além de Mestrado pela UFMT e MBAs.
