Em um cenário mundial marcado por guerras, volatilidade nas bolsas de commodities e pressão sobre custos de produção, o agronegócio pode ter os bioinsumos e manejo do solo como aliados para criar uma reserva de segurança diante da guerra e alta dos fertilizantes. O produtor vive um momento de atenção redobrada.
Em entrevista concedida ao MT Econômico e jornalistas durante Press Trip organizada pela Famato em parceria com a Embrapa e a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec), o chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa, Dr. Flávio Wruck, detalhou como a geopolítica tem se tornado fator decisivo para a rentabilidade no campo – e por que o produtor precisa se antecipar.
Segundo ele, o período da pandemia de Covid-19 já havia mostrado que choques globais não atingem todos os setores da mesma forma. Enquanto diversos segmentos da economia sofreram retração, o agro conseguiu se beneficiar de preços mais altos das commodities. Agora, porém, a combinação de conflitos prolongados, incertezas logísticas e dependência externa de insumos coloca o setor em situação bem mais delicada.
O especialista da Embrapa defende que entender o tabuleiro internacional deixou de ser “opcional” para quem produz. Em sua visão, a geopolítica deveria fazer parte da formação básica justamente porque decisões tomadas em outros continentes estão determinando o custo do fertilizante que chega à fazenda e, por consequência, o resultado da safra.
Ele lembrou que a guerra na Ucrânia provocou uma escalada expressiva nos preços dos fertilizantes, em especial pela insegurança no fornecimento por países que figuram entre os grandes exportadores desses insumos. À época, muitos acreditaram que se tratava de um movimento temporário. O tempo mostrou o contrário: os preços se mantiveram pressionados por muito mais tempo do que o mercado esperava, afetando diretamente a formação de custos na agricultura.
Agora, um novo foco de tensão se soma a esse cenário: o conflito na região do Golfo e o risco de restrições em importantes rotas marítimas. Para o Dr. Flávio Wruck isso traz duas linhas de preocupação para o produtor rural. De um lado, o encarecimento de combustíveis como diesel e derivados de petróleo, impactando imediatamente o frete, o preparo de solo e todas as operações mecanizadas. De outro, a possibilidade real de dificuldades na importação de fertilizantes, especialmente os potássicos e os à base de nitrogênio, essenciais para as culturas de grãos.
Wruck destaca que os efeitos mais graves desse novo ciclo de instabilidade não devem ser totalmente sentidos na safra atual, mas podem aparecer com força nas próximas janelas de plantio. Ele chamou a atenção para o planejamento de médio prazo, citando que as safras em torno de 2027/28 podem ser diretamente impactadas caso a situação logística internacional não seja equacionada com rapidez.
Diante desse quadro, a mensagem do chefe adjunto da Embrapa ao produtor é clara: não dá para esperar que o problema se resolva sozinho. É fundamental pensar em estratégias de mitigação que reduzam a dependência de insumos importados e deem maior resiliência aos sistemas produtivos.
Um dos caminhos apontados por Wruck é a construção de solos mais saudáveis e com maior teor de matéria orgânica, por meio de práticas como o plantio direto bem conduzido e a integração lavoura-pecuária. Nessas condições, o solo passa a funcionar como uma espécie de “seguro” natural, acumulando nutrientes que podem ser melhor aproveitados em momentos de crise.
Na prática, isso significa que, em anos de fertilizante caro ou de risco de desabastecimento, o produtor pode lançar mão de tecnologias que liberam parte do fósforo já existente no solo, reduzindo a necessidade de adubação química de manutenção. Um exemplo citado é o uso de bioinsumos específicos, como microrganismos capazes de solubilizar fósforo antes indisponível para as plantas. Segundo o pesquisador, produtos desse tipo, a exemplo de soluções que utilizam o conceito aplicado em formulações como o Bioma Phos, permitem que o agricultor use com mais inteligência o que já está no perfil do solo.
Wruck ressalta, porém, que essa “poupança invisível” não é inesgotável. A estratégia de diminuir a dose de fertilizantes químicos e compensar com o fósforo acumulado no solo deve ser adotada, principalmente, em anos de turbulência, e não de forma contínua, sob pena de comprometer a produtividade no longo prazo. Em outras palavras, o solo oferece fôlego, mas não substitui a necessidade de reposição adequada de nutrientes ao longo dos ciclos.
Além da questão do fósforo, o pesquisador lembrou que o mercado brasileiro hoje conta com uma diversidade crescente de bioinsumos e microrganismos que atuam em diferentes frentes: aumento da eficiência na absorção de nutrientes, promoção de crescimento radicular, maior tolerância ao estresse térmico e à falta de água, entre outros benefícios. Muitos desses produtos vêm sendo desenvolvidos não apenas pela Embrapa, mas também por empresas privadas e startups especializadas.
Ele observa que, se olharmos os últimos cinco anos, o uso de bioinsumos no Brasil passou por um crescimento considerado “brusco” e “fantástico”. Esse avanço, na avaliação do especialista, não é coincidência: está diretamente ligado às crises sucessivas de fertilizantes, deflagradas no contexto da guerra, da pandemia e da instabilidade em países fornecedores. Pressionado pelos custos e pela insegurança de abastecimento, o produtor brasileiro buscou alternativas – e encontrou nesses insumos biológicos uma das principais ferramentas para mitigar os impactos.
O movimento de adoção de bioinsumos, segundo Wruck, também se encaixa em uma agenda mais ampla, que envolve sustentabilidade, redução da pegada de carbono e maior eficiência no uso de recursos naturais. Ao integrar biológicos ao manejo tradicional, o produtor ganha margem tanto econômica quanto ambiental.
Outro ponto enfatizado na entrevista foi a necessidade de enxergar as crises também como janelas de oportunidade. Ele citou o caso do milho destinado à produção de etanol, como tem ocorrido em Mato Grosso um crescimento expressivo na produção. A instabilidade no mercado internacional de petróleo, somada às discussões sobre segurança energética e emissões, tende a valorizar os biocombustíveis. Nesse contexto, usinas de etanol de milho e a cadeia do biodiesel podem ser beneficiadas pela elevação da demanda e pela busca de alternativas renováveis.
Para o produtor, isso implica acompanhar com atenção o comportamento dos mercados e avaliar, safra a safra, de que forma direcionar a produção: se priorizando grão para exportação, para consumo interno ou para atendimento da indústria de biocombustíveis. A leitura fina dessas mudanças pode significar a diferença entre um resultado apenas regular e um ciclo de margens mais confortáveis.
Wruck reforçou, ainda, que o produtor rural precisa olhar não só para dentro da porteira, com foco em eficiência operacional e manejo de solo, mas cada vez mais para fora dela, acompanhando preços internacionais, decisões de países compradores, gargalos logísticos e tendências de consumo. Na sua visão, essa dimensão de mercado é hoje tão estratégica quanto a tecnologia aplicada na lavoura.
Ao avaliar o que mudou desde o início da pandemia, ele destaca que a preocupação com a dependência de fertilizantes já estava no radar e acabou acelerando transformações importantes. A principal delas foi justamente o desenvolvimento e a disseminação de tecnologias biológicas para apoiar a nutrição e a sanidade das plantas, dando ao produtor novas armas para enfrentar a volatilidade externa.
Na parte final da conversa, o representante da Embrapa pontuou que a oferta de bioinsumos no mercado nacional vem se ampliando de forma consistente, com produtos desenhados para diferentes culturas e condições de estresse. Muitos deles miram, por exemplo, o aumento da tolerância das plantas a altas temperaturas e períodos de menor disponibilidade hídrica – fatores que, combinados às incertezas geopolíticas, compõem um cenário desafiador para as próximas safras.
Diante de tantas variáveis, a recomendação do Dr. Flávio Wruck é clara: o produtor que se antecipar, investir em construção de solo, testar e incorporar bioinsumos ao seu sistema e acompanhar de perto o ambiente internacional terá mais chances de atravessar esse ciclo de incertezas mantendo a competitividade. Para ele, a combinação entre ciência aplicada no campo e leitura estratégica de mercado é hoje o principal diferencial do agronegócio brasileiro.
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