Em entrevista concedida ao MT Econômico durante a Press Trip realizada nesta semana, na fazenda Rio Manso, o diretor de Relações Institucionais do Sistema Famato, Ronaldo Vinha, fez um alerta duro sobre a realidade do campo em Mato Grosso. Segundo ele, o produtor rural vive hoje uma combinação “explosiva” de custos elevados, frete caro, commodities desvalorizadas e carga tributária pesada, mesmo produzindo sob o que classifica como o código florestal mais restritivo do mundo e mantendo altos índices de preservação ambiental. Na avaliação do dirigente, sem alívio nos impostos e avanço consistente em infraestrutura – com destaque para a Ferrogrão – o agronegócio mato-grossense perde competitividade, apesar de ser um dos mais produtivos do planeta.
“O agro não é vilão”: preservação e imagem do setor
Logo no início da conversa, Vinha enfatizou a importância da aproximação entre o agronegócio e a sociedade urbana, destacando o papel da imprensa na Press Trip promovida pela Famato.
Para ele, ainda há um grande desconhecimento, principalmente nos grandes centros, sobre como se produz em Mato Grosso. Esse distanciamento alimenta críticas ao setor que, segundo o diretor, não condizem com a realidade de campo.
“É muito importante levar para as pessoas dos grandes centros o que é o agronegócio, da onde vem o agro, desmistificar isso que muitas pessoas falam mal do agronegócio. E o agro não é nada disso”, afirmou.
Vinha destaca que a atividade é fortemente regulada do ponto de vista ambiental e que a “questão documental é muito séria”. Quem tem desmate irregular, pontua, simplesmente não consegue comercializar a produção, seja na pecuária ou na agricultura.
Ele lembra ainda que mais de 60% do território de Mato Grosso está preservado e que, dentro das fazendas, cerca de 42% das áreas são mantidas intactas. “Então não tem ilegalidade nisso”, sustenta, reforçando que o produtor não aceita ser rotulado como vilão ambiental.
Plano ABC+ como ferramenta de competitividade
A entrevista ocorreu durante uma ação do Plano ABC+ em ação, na fazenda Rio Manso, iniciativa que, segundo Vinha, atende exatamente às demandas atuais dos produtores.
“O Plano ABC+ em ação vem de encontro ao que o produtor necessita: levar conhecimento e também dinheiro”, resume.
Ele lembra que o investimento no agronegócio é muito alto – maquinário caro, terra cara, custo elevado em todas as etapas – e que, muitas vezes, o produtor precisa de apoio na hora do plantio. O programa atua de forma integrada com os bancos, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec), e conecta o produtor a instituições como Embrapa, Famato e Imea, que levam tecnologia, capacitação e orientação.
Na visão do diretor, esse tipo de política é essencial para manter a competitividade do campo, ao mesmo tempo em que promove sustentabilidade, reduz emissões e aumenta a eficiência produtiva.
Legislação rígida, preços baixos e margens apertadas
Ao falar sobre as dificuldades para promover sustentabilidade e manter o negócio de pé, Vinha destaca que o produtor brasileiro opera sob uma pressão regulatória e econômica simultânea.
“Nós temos hoje o código florestal mais restrito do mundo, não existe país que tem um código florestal que chega nem perto do nosso”, afirma.
Do outro lado da equação, os preços das commodities seguem em patamar considerado baixo, muitas vezes insuficiente para cobrir os custos. Ele cita o caso da soja sendo vendida em torno de R$ 100 a saca, valor que, em várias situações, “não paga nem o custo do produtor”.
No caso da pecuária, o dirigente reforça que a carne bovina brasileira é de excelente qualidade, oriunda de animais criados majoritariamente a pasto, com menor uso de ração, o que a torna bastante aceita em mercados internacionais. Apesar disso, a remuneração ao produtor não acompanha esse padrão.
“O nosso gado não perde nada para nenhum animal no mundo. A nossa carne é de excelente qualidade, muito aceita em todos os países, mas o preço realmente é baixo e não dá para entender”, diz. Vinha aponta ainda a influência de grandes empresas, inclusive brasileiras, que atuam globalmente e, segundo ele, acabam pressionando os preços para baixo para ganhar mercado, o que aumenta a dificuldade em todos os segmentos do agro.
Logística cara corrói renda e encarece produção
Outro ponto central para o diretor da Famato é a logística. A posição geográfica de Mato Grosso, distante dos portos, associada à precariedade de parte da malha rodoviária e ao custo do combustível, tem impacto direto na renda do produtor.
“Estamos muito longe dos portos, mais de 2 mil quilômetros até Santos. Para chegar em Miritituba são mais de mil quilômetros de estradas ruins, uma dificuldade para o caminhoneiro”, descreve.
A alta do óleo diesel, impulsionada também por conflitos internacionais, encarece o frete e faz com que a indústria pague menos pela soja e outros produtos na origem, para compensar o custo do transporte. “O frete aumenta, logicamente o ‘cara’ vai pagar menos na soja lá porque está pagando mais no frete”, explica.
Segundo Vinha, esse cenário ajuda a explicar por que combustíveis e alimentos produzidos no próprio estado, como a carne, muitas vezes são mais caros em Mato Grosso do que em outras regiões do país. Ele reforça que o produtor brasileiro “está precisando que o governo federal e as entidades olhem para esse setor com mais atenção”, diante das dificuldades atuais.
Ferrogrão: aposta para destravar gargalo logístico
A aprovação da Ferrogrão, projeto de ferrovia que ligará o Centro-Oeste aos portos do Arco Norte, é vista por Vinha como um passo decisivo para reduzir o chamado “custo Brasil” no agro.
“É muito importante a Ferrogrão, vai resolver um gargalo nosso”, avalia. Ele destaca que o transporte ferroviário é muito mais barato e estima que o custo por tonelada até o porto possa cair para menos da metade em relação ao transporte rodoviário.
O diretor lembra que países concorrentes, como Argentina e Estados Unidos, já operam com redes ferroviárias densas e integradas ao campo. “Os Estados Unidos são interligados totalmente de ferrovias. Dá gosto de ver: as ferrovias passam do lado das fazendas, onde tem os silos, descarregam diretamente dentro do trem”, relata.
Na avaliação dele, o Brasil precisa perseguir esse padrão. “O dia que nós conseguirmos melhorar a nossa logística, o agronegócio vai melhorar – e muito”, projeta. Vinha também faz questão de frisar que os caminhoneiros não serão substituídos pela ferrovia. Segundo ele, com o aumento do volume movimentado, será necessário ainda mais transporte rodoviário dentro das propriedades, do campo até os silos, o que já é objeto de estudos para evitar prejuízos à categoria.
Endividamento elevado e risco financeiro no campo
Vinha aponta que o ciclo recente de expansão do agronegócio, com preços elevados e forte demanda, incentivou investimentos maciços em implementos e tecnologia, o que elevou o nível de endividamento das propriedades.
“Houve um aumento muito grande do agronegócio e houve um investimento maciço em implementos agrícolas. Esse investimento é muito alto”, explica.
Com a queda das commodities, muitos produtores passaram a ter dificuldade para honrar as parcelas anuais desses financiamentos, o que se reflete em renegociações e pedidos de alongamento de dívidas.
“O produtor brasileiro está com muita dificuldade, haja vista o nível de dívida do pessoal, muitas renegociações acontecendo, o cara está muito apertado”, afirma. Para ele, a saída passa necessariamente pela redução de custos estruturais. “Nós realmente precisamos que esse custo nosso diminua, e eu tenho certeza que, diminuindo o custo, o Brasil vai ultrapassar todos os países do mundo em produtividade”, projeta.
Algodão em retração e avanço do milho
A conjuntura de custos e preços também vem provocando mudanças na composição das lavouras. Durante a Press Trip, foi apontado que a área de algodão tem diminuído por uma questão econômica, movimento confirmado por Vinha.
“O algodão é uma planta muito cara para se produzir. Hoje um hectare de algodão fica em torno de três vezes mais caro do que um hectare de soja”, detalha.
Com o preço internacional da fibra em patamar pouco atrativo, o produtor tem buscado alternativas. “Ele opta por plantar o milho, que é bem mais barato para se produzir e está com um preço razoável”, explica. O milho ganhou impulso com a expansão das usinas de etanol de milho em Mato Grosso, que ampliaram a demanda local pelo grão.
Essa mudança estratégica tende a impactar tanto o produtor – que migra para culturas com melhor relação custo-benefício – quanto a cadeia têxtil, com possibilidade de oferta mais apertada de algodão e reflexos no preço das roupas ao consumidor final.
Carga tributária e Fethab: o que foge ao controle do produtor
Questionado sobre fatores que estão fora do controle do produtor rural, Vinha aponta a questão fiscal como um dos principais entraves.
“Nós pagamos imposto demais no Brasil. O imposto cobrado em cima do produtor rural é um absurdo”, critica. Além dos tributos federais, ele cita o Fethab 1 e 2 em Mato Grosso como exemplos de encargos adicionais sobre o setor.
Ao mesmo tempo, reconhece que os recursos arrecadados foram direcionados para obras de infraestrutura no estado. “O governador Mauro Mendes usou realmente o dinheiro que o produtor pagou para os investimentos”, reconhece.
O problema, segundo ele, é que o atual cenário de baixa nas commodities e alta nos combustíveis tornou esse peso fiscal insustentável. “Nesse momento de baixa nas commodities, essa dificuldade muito grande, a alta dos combustíveis, o produtor está pedindo ajuda. Precisa diminuir esses impostos, diminuir esse custo, porque realmente está ficando difícil de produzir aqui no Brasil”, conclui.
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