A extinção da escala 6×1 — que permite ao empregador escalar o trabalhador por seis dias consecutivos com apenas um de folga — promete ser um dos debates trabalhistas mais complexos dos últimos anos. Mas além das trincheiras ideológicas, há números concretos em jogo: um estudo técnico acaba de calcular quanto essa mudança pode custar à economia brasileira, e o resultado é expressivo.
O varejo, setor que emprega milhões de brasileiros e responde por 7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, seria o principal absorvedor do choque. A razão é estrutural: shoppings, supermercados e farmácias operam frequentemente sete dias por semana, com jornadas de 10 a 14 horas diárias. Reduzir os dias trabalhados cria uma lacuna imediata na operação — e preenchê-la tem custo.
Para o Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School: “O varejo não para. Quando o funcionário folga, alguém precisa ocupar o balcão.”
A CONTA IMEDIATA – Se a mudança for implementada de uma vez — o que os pesquisadores chamam de ‘implantação imediata’ —, a perda de geração de riqueza no varejo variaria entre 3,6% e 6,1%, dependendo do segmento e do porte da operação. O setor de tecidos, vestuário e calçados seria o mais impactado nas pequenas lojas: queda de 6,1%. Os postos de combustíveis estruturados em rede seriam os menos afetados: 3,6%.
O mecanismo é matemático. O varejo físico depende de dois fatores de produção — trabalho e capital — e as margens do setor são historicamente estreitas. Um choque repentino nos custos de folha de pagamento dificilmente consegue ser absorvido pelo caixa. A consequência mais provável, apontam os pesquisadores, é o repasse ao consumidor: produtos mais caros e pressão inflacionária.
Para as grandes redes, há uma válvula de escape que o pequeno comércio não tem: a automação. Supermercados já operam com dezenas de caixas de self-checkout. O pequeno comerciante de bairro não tem esse fôlego financeiro — e pode simplesmente fechar as portas.
O IMPACTO NO PIB – Considerando que o varejo de bens representa cerca de 8% do PIB brasileiro, a redução na geração de riqueza do setor se traduziria em uma queda de pelo menos 0,32 ponto percentual do PIB — apenas pelas operações varejistas. Não estão contabilizados efeitos indiretos sobre fornecedores, logística e consumo.
E SE A MUDANÇA FOR GRADUAL? – O estudo também projeta um cenário alternativo: a implantação ao longo de dez anos, o que daria tempo para que empresas e trabalhadores se adaptassem. Nesse caso, o impacto dependeria do ritmo de adoção de tecnologia e do crescimento da produtividade do setor.
Três situações foram modeladas: conservadora (produtividade crescendo 0,25% ao ano), realista (1,25% a.a.) e otimista (2,5% a.a.). Em todas elas, a perda existe — mas diminui com o tempo e com a modernização das operações.
No cenário otimista — com forte consolidação do setor, automação ampla em centros de distribuição e lojas, e inteligência artificial integrada a toda a operação —, o impacto cai de 0,31 ponto percentual no primeiro ano para 0,25 no décimo. Ou seja: mesmo no melhor dos mundos, a perda não desaparece. Ela encolhe.
O QUE ESTÁ EM JOGO? – O debate sobre a escala 6×1 não é apenas trabalhista — é econômico. A questão central, como aponta o estudo, é a produtividade: se a redução de jornada vier acompanhada de ganhos tecnológicos e organizacionais, o custo pode ser absorvido ao longo do tempo. Se vier de forma abrupta, sem adaptação, o risco é transferir o ônus para quem compra — o próprio trabalhador que a medida pretende proteger.
O varejo brasileiro está diante de uma equação delicada: mais descanso para quem trabalha, sem esvaziar as prateleiras — e o caixa — de quem vende.
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