No calendário brasileiro, hoje, dia 24 de maio marca o Dia Nacional do Milho, uma data que celebra a importância econômica, nutricional e cultural deste cereal, segundo grão mais cultivado no país e base da alimentação animal e humana.
De acordo com o 7º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve colher 139,6 milhões de toneladas de milho neste ciclo. Apesar de uma leve queda nacional de 1,1% em relação ao último período, o cereal mantém posição central no campo, sustentado principalmente pela segunda safra, que deve responder por mais de 100 milhões de toneladas.
E quando se fala em segunda safra, não tem como falar do milho mato-grossense. Que de opção de safrinha, passou ao protagonismo e dá ao estado o título de maior produtor nacional do cereal, mesmo cultivando apenas em ‘safrinha’.
A paisagem agrícola de Mato Grosso, hoje marcada por extensas lavouras de soja e milho, nem sempre refletiu a pujança que transformou o estado em um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Até meados da década de 1970, produzir no Cerrado brasileiro era um desafio marcado por solos ácidos, baixa fertilidade natural, limitações logísticas e pouca tecnologia disponível.
Foi a partir da revolução agrícola impulsionada pela pesquisa científica e pela persistência dos produtores que esse cenário começou a mudar e, com ele, nasceu um novo modelo produtivo que viria a redefinir o papel do Brasil no mercado global de grãos. A virada começou com o desenvolvimento de tecnologias capazes de viabilizar o cultivo no Cerrado. A correção do solo com calcário, aliada ao uso de fertilizantes como fósforo e potássio, abriu caminho para culturas como a soja e, posteriormente, o milho.
De acordo com o segundo diretor administrativo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), Jorge Diego Giacomelli, esse avanço foi determinante para a expansão agrícola na região. “Após o desenvolvimento de tecnologias que possibilitaram o cultivo nos solos ácidos do Cerrado, a agricultura explodiu. Tudo isso foi possível graças à pesquisa, à tecnologia e à perseverança dos produtores que transformaram Mato Grosso em uma potência agrícola”, afirma.
Esse processo de transformação foi gradual e exigiu adaptação constante. O produtor do núcleo de Nova Mutum, Néstor Poleto, iniciou sua trajetória no estado ainda na década de 1970 e relembra as dificuldades enfrentadas no início da atividade. “Minha primeira cultura foi o arroz, em 1979. Em 1983, inseri a soja e tive bons resultados após corrigir o solo. Na época, a colheita era ensacada e a comercialização era muito difícil”, conta.
Com o avanço das pesquisas, especialmente no desenvolvimento de cultivares mais precoces e adaptadas ao clima do Cerrado, o calendário agrícola começou a se ajustar. O plantio da soja foi sendo antecipado de dezembro para novembro e, posteriormente, para outubro, abrindo uma janela estratégica para a introdução de uma segunda cultura no mesmo ano agrícola: o milho.
Inicialmente, o milho safrinha surgiu como uma alternativa de cobertura de solo, fundamental para a consolidação do sistema de plantio direto. No entanto, com o passar dos anos, a cultura ganhou protagonismo.
“A pesquisa foi trazendo cultivares de ciclo mais curto e permitindo a introdução do milho como cobertura. Isso consolidou cada vez mais a cultura, que hoje deixou de ser safrinha para se tornar uma safra”, destaca Poleto.
GANHOU ESPAÇO E LIQUIDEZ – A evolução tecnológica também desempenhou papel central nesse processo. O desenvolvimento de equipamentos mais modernos, a adoção do plantio direto, o uso de adubação mais eficiente e, mais recentemente, a incorporação de biotecnologias e automação no campo elevaram significativamente a produtividade. Poleto relata que, com novas práticas de manejo, conseguiu aumentar sua média produtiva de soja de cerca de 57 sacas por hectare para mais de 63 sacas.
Esse salto produtivo foi acompanhado por uma mudança estrutural no modelo de produção. O milho passou a exercer uma função estratégica dentro do sistema, contribuindo para a sustentabilidade do solo, a diversificação da renda e a viabilidade econômica da atividade.
Para o produtor do núcleo de Sorriso, Sérgio Triches, que chegou a Mato Grosso no fim da década de 1980, a introdução gradual do milho foi decisiva para a consolidação da agricultura no estado. “No início, utilizávamos cerca de 20% da área com milho. Com o tempo, isso foi aumentando até chegar aos 100% atuais. O milho se tornou um grande diluidor de custos e um fator determinante para a rentabilidade da atividade”, explica.
Ele ressalta que o desenvolvimento não ocorreu de forma simples, mas foi resultado de investimentos contínuos em tecnologia, gestão e inovação. “Hoje, as coisas são mais fáceis em termos de tecnologia, mas mais desafiadoras em gestão. O produtor precisa estar atento aos custos e à eficiência para se manter competitivo”, afirma.
A trajetória do milho também foi marcada por desafios comerciais e logísticos, especialmente nas primeiras experiências com a cultura. O produtor do núcleo de Diamantino, Altemar Krolling, relembra as dificuldades enfrentadas no início da década de 1990.
“Quando começamos a plantar milho ainda nos anos 90, plantamos 150 hectares e foi difícil de vender a produção. Não tinha consumo e o valor do frete não fechava a conta para mandar para o Sul do país, e a produção não passava de 80 sacas por hectare. Eu já pensava numa alternativa de renda, mas não fechava a conta. Hoje, a cultura do milho já se consolidou e é ela que deixa renda para o produtor”, relata.
Além do impacto direto nas propriedades rurais, a consolidação do milho na segunda safra provocou uma verdadeira revolução econômica e social em Mato Grosso. A cultura passou a gerar uma nova fonte de renda anual para os produtores e impulsionou o crescimento de cadeias produtivas associadas, como a produção de ração animal e, mais recentemente, a indústria de etanol de milho.
De acordo com Giacomelli, a expansão dessas indústrias representa um novo capítulo no desenvolvimento do estado. “A implantação das usinas de etanol de milho foi uma revolução econômica. Isso gera emprego, renda e desenvolvimento para os municípios, além de agregar valor à produção”, destaca.
PROTAGONISTA – Os dados mais recentes do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) apontam para um crescimento expressivo da produção de milho nas últimas décadas, consolidando o estado como o maior produtor nacional do grão. Esse avanço reflete não apenas o aumento da área cultivada, mas principalmente os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.
Atualmente, o milho já divide protagonismo com a soja e, em alguns cenários, desponta como potencial cultura principal no futuro. A crescente demanda por grãos para alimentação animal e a expansão do mercado de biocombustíveis reforçam essa tendência.
“Eu acredito que o milho pode se tornar a principal cultura do estado. A demanda por ração e por etanol de milho só cresce, e o produtor está preparado para atender esse mercado”, projeta Giacomelli.
Poleto também compartilha dessa visão e vai além ao destacar o papel do milho na construção de um sistema produtivo mais equilibrado. “O milho melhora o solo, aumenta a matéria orgânica e contribui para o desenvolvimento das outras culturas. É um caminho sem volta”, afirma.
Hoje, o que antes era chamado de “safrinha” já não reflete a importância da cultura no campo. O milho de segunda safra consolidou-se como peça-chave na engrenagem do agronegócio mato-grossense, garantindo não apenas produtividade, mas também sustentabilidade e estabilidade econômica.
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