O Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá, se transformou, neste fim de semana, no principal polo de tecnologia, criatividade e negócios do Centro-Oeste. O Sebrae Hacking 2026 é mas do que um evento, mas principalmente uma experiência imersiva que conecta empreendedores, investidores, estudantes, gestores públicos e grandes corporações em torno de um desafio comum: redesenhar o futuro da economia e inovação de Mato Grosso. O MT Econômico esteve presente no evento e traz, nesta matéria especial, os destaques do primeiro dia de programação.
O Sebrae Hacking 2026 consolida-se não apenas como o maior encontro de “mentes estendidas” da região, mas também como uma prática viva de construção de futuro, mobilizando agentes locais, empreendedores e investidores em busca de soluções para desafios globais a partir do território mato-grossense. Longe dos discursos corporativos tradicionais, a tônica da abertura foi clara: colocar a criatividade no centro da estratégia de desenvolvimento.
Com público superior ao da edição anterior, o evento se desdobrou em sete arenas simultâneas, com trilhas que vão do letramento digital ao impacto da inteligência artificial nas grandes indústrias brasileiras, passando por ecossistemas de inovação, investimento em startups, ciência aplicada e transformação de cidades.
“Um celeiro de novas fronteiras econômicas”: o olhar do Sebrae-MT
Para o Sebrae de Mato Grosso, o Hacking 2026 é um marco de amadurecimento de um movimento que já se espalha por todo o estado. O diretor técnico do Sebrae-MT, André Schelini, trouxe uma reflexão sobre o que será Mato Grosso até 2070.
“Muitas vezes insistimos em debater apenas o que é tradicional e deixamos de lado o que realmente pode romper padrões. É justamente esse tipo de diálogo que buscamos no evento: criar conexões que nos permitam desenhar um novo Mato Grosso. Porque, no fim, somos pessoas capazes de liderar a construção de um Estado que ainda está por se fazer, em um horizonte de duas gerações, até 2070. Que Estado queremos em 2070? Essa é uma conversa que precisa ser levada para as cidades, para as instituições, para as escolas. E o Sebrae se coloca como um aliado permanente na tarefa de fomentar e fortalecer esses ecossistemas de inovação em todo o território mato-grossense”, destacou.
André Schelini ressaltou que hoje em Mato Grosso são 14 ecossistemas de inovação conectados e apresentou a importância do Sebrae Hacking 2026. “São 3 mil pessoas inscritas nesse evento, um evento que cresceu com muitas parcerias, e estamos muito felizes, até porque vocês da imprensa estão aqui. Esse ano tem mais pessoas aqui, o evento traz temas que realmente são de vanguarda”, afirmou Schelini.
O diretor do Sebrae reforçou a necessidade de oferecer novos horizontes à juventude mato-grossense, além dos setores tradicionalmente fortes como mineração, transporte e produção de alimentos. Ele citou energia (fotovoltaica e biocombustíveis), biodiversidade, sustentabilidade e negócios digitais como novas fronteiras econômicas que exigem inovação, criatividade e, sobretudo, pequenos negócios articulados às cadeias produtivas globais.
Nesse contexto, Schelini lembrou a entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia como vetor de oportunidades internacionais, em um cenário global marcado por conflitos e instabilidade. Para ele, criatividade e inovação deixam de ser conceitos abstratos e passam a ser competências centrais para posicionar Mato Grosso no mapa mundial.
De Inova Biomas às “techs” mato-grossenses: o boom das startups
A trajetória recente do estado em inovação ficou evidente na fala de Schelini ao citar o programa Inova Biomas, articulado com o governo estadual via FAPEMAT, que já impulsionou mais de 700 startups na região. Muitas delas, segundo o diretor, já superaram fronteiras geográficas e começam a disputar espaço em mercados nacionais e internacionais.
“Em todas essas cadeias, a inovação é proponente. A criatividade é o diferencial competitivo. Então, nós precisamos de pessoas que possam arriscar e investir nelas. Muitas dessas startups vão morrer e outras vão nascer. Mas precisamos acreditar que Mato Grosso tem potencial e é um celeiro não só de agronegócio, mineração, energia, mas, acima de tudo, de startups que podem fazer a diferença em Agrifoods, Agritech, Cleantech, Edutech, área jurídica, gestão”, exemplificou.
Schelini também apontou o papel dos investidores locais – apoiados por parcerias com Sicredi, Senai e a aceleradora Venture – na formação de uma nova cultura de risco, capital semente e inovação aberta em Mato Grosso. Para ele, esse movimento conecta talento local com capital e estrutura, abrindo caminho para startups competitivas globalmente.
Criatividade como identidade: biodiversidade, cultura e branding de território
Um dos pontos centrais da reflexão de André Schelini foi a ideia de que a maior vantagem competitiva de Mato Grosso está na sua miscigenação e na riqueza cultural e ambiental. Ele lembrou que o estado reúne mais de 43 etnias de povos originários, comunidades tradicionais e fluxos migratórios de dentro e fora do Brasil, formando um mosaico único de referências criativas.
Ao citar exemplos como a cratera de Araguainha, a Serra do Roncador, o bioma Pantanal – maior área alagada do planeta – e o santuário de elefantes na região, Schelini provocou o público a enxergar esses ativos não apenas como patrimônio natural, mas como base para economia criativa, turismo de experiência, observação de aves, audiovisual, artesanato e branding territorial.
“Quando a gente fala de inovação e criatividade, não estamos falando apenas de sistemas. Estamos falando de um pensamento mais estratégico, mais lúdico, capaz de enxergar oportunidades onde muitas vezes a gente só passa e não consegue ver”, refletiu.
Para o diretor, o mundo já paga caro por experiências singulares – como o turismo em ilhas remotas na Escócia ou cidades como Hong Kong, que transformaram limitações geográficas em hubs tecnológicos. A pergunta, para Schelini, é como Mato Grosso pode traduzir seus diferenciais em marcas fortes, negócios sustentáveis e renda para a população local.
Estado digital e cidades inovadoras: governo como plataforma de desenvolvimento
O avanço estrutural da inovação em Mato Grosso também foi analisado por Allan Kardec Pinto, ex-secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação. Em sua participação, ele fez uma retrospectiva dos últimos sete anos e meio de gestão estadual, enfatizando a transição de um governo analógico para um governo integralmente digitalizado.
Segundo Allan, o que antes era resolvido em protocolo físico hoje flui por meio de sistemas integrados, do aplicativo Gov MT à conexão com a plataforma Gov BR, ampliando o acesso a serviços, taxas, concursos e programas de qualificação diretamente pelo smartphone do cidadão.
Ele destacou ainda a criação do prêmio “Cidades Inovadoras”, que direciona recursos e formação a prefeitos e prefeitas interessados em transformar seus municípios em ambientes mais conectados, eficientes e atrativos para novos negócios.
“O estado que até pouco tempo atrás vendia commodities, hoje é referência no mundo em biocombustíveis e energias renováveis. Não somos mais um estado eminentemente agrícola, somos um estado da agroindústria e agora queremos ser o estado da inovação, com a inauguração do Parque Tecnológico em Várzea Grande”, explicou Allan.
Entre os desafios, o ex-secretário chamou atenção para os gargalos de conectividade, a baixa cobertura de telefonia em algumas regiões e o fosso entre jovens hiperconectados e adultos/idosos ainda analfabetos digitais. A meta, segundo ele, é zerar o número de “nem-nem” (jovens que não estudam nem trabalham) em dois anos, apoiando formação técnica e inclusão digital em larga escala.
Inovação aberta e “super-humanas”: o recado da Natura
O peso que o Sebrae Hacking 2026 ganha no cenário nacional fica evidente pela presença de executivos de grandes empresas no evento. Na arena de startups, Thamara Prado, head de Novos Negócios e Investimentos Corporativos da Natura, trouxe o olhar de uma gigante de cosméticos que aposta cada vez mais em inovação aberta.
Para Thamara, a velocidade das transformações tecnológicas torna impossível desenvolver, internamente, 100% das inovações de forma competitiva. Por isso, o relacionamento com o ecossistema empreendedor – startups, hubs e pesquisadores – passa a ser parte da estratégia core da companhia.
“O papel do ecossistema empreendedor é muito relevante pra gente poder acelerar vantagens competitivas e acessar tecnologias emergentes. A gente chama de ganha-ganha-ganha, gerando valor para a Natura, para nossas consultoras de beleza – são quase quatro milhões de mulheres na América Latina – e para a sociedade, pela forma como fazemos negócios, com circularidade e regeneração”, destacou.
Thamara também defendeu o uso da inteligência artificial como aliada das consultoras, ajudando a tornar essa rede “super-humana”, e não substituída pela tecnologia. Do atendimento ao cliente à logística, passando por análise de dados, a IA é vista pela Natura como ferramenta para decisões mais precisas, aumento de produtividade e ampliação da prosperidade compartilhada.
Investimento, ciência e ecossistemas: Mato Grosso como celeiro de soluções
Na visão de Leandro Gonçalves, gerente de Inovação do Sebrae-MT, o Hacking 2026 não é apenas um evento, mas um movimento contínuo.
“É um convite para que estudantes, gestores públicos e empreendedores utilizem a inovação como ferramenta de transformação. O Hacking se posiciona como um ponto de encontro e coloca Mato Grosso como um celeiro de novas soluções, novas startups”, pontuou.
Com mais de 60 palestrantes – entre nomes de forte apelo popular, como Toguro e Juliette, e representantes de grandes marcas como Natura, Mormaii e Carmen Steffens –, a programação combina inspiração, técnica e negócios.
Leandro destacou três eixos centrais:
- A aproximação entre academia, mercado e Sebrae, para que soluções inovadoras tenham base científica sólida e impacto real;
- A Arena do Ecossistema de Inovação, reunindo os 14 ecossistemas do estado para discutir desenvolvimento econômico territorial;
- A Arena de Investimento, que forma novos investidores mato-grossenses e orienta startups sobre captação com fundos, FINEP, BNDES e outras fontes de capital.
“Convidamos ecossistemas, atores, gestores públicos, academia, setor corporativo, sociedade civil e sistema S para discutir como posicionar Mato Grosso, no cenário nacional, como um celeiro de inovação e novas soluções tecnológicas”, resumiu.
Nos corredores, a virada de chave pessoal: autenticidade e presença digital
Se, no palco, o debate é sobre estratégias macro e políticas públicas, nos corredores a conversa é sobre transformação individual. Entre painéis e arenas, o MT Econômico ouviu participantes que já colocam em prática os insights do evento em seus negócios e carreiras.
Para a analista Sara de Paula, a palestra do criador de conteúdo Teodoro foi um divisor de águas sobre autenticidade na produção de conteúdo digital.
“A palestra do Teodoro foi muito esclarecedora principalmente sobre a importância dos pequenos na criação de conteúdo. Ele trouxe que tudo que ele faz é expor o dia dele, como ele enxerga o mundo, as opiniões dele, e dar a oportunidade das pessoas concordarem ou não. Isso reforça que todas as pessoas são originais, têm sua identidade e podem produzir seu próprio conteúdo, expondo seu olhar e seu ponto de vista”, relatou Sara.
O impacto também chegou a quem normalmente atua nos bastidores da tecnologia. O empreendedor de automação Luiz Fernando Barbosa contou que o conteúdo sobre vivência digital o fez repensar sua postura como marca pessoal.
“Eu tenho que vender o meu produto. Mesmo sendo aquele gestor de tomada, de tecnologia por trás do computador, eu tenho que vender o meu trabalho no digital para as pessoas me verem e reconhecerem quem eu sou. Foi interessante a palestra pra me trazer mais pro meio de aparecer mais no digital e não ficar só nas portas do computador”, avaliou Luiz Fernando.
Um Mato Grosso inteligente, sustentável e plenamente digital
Ao fim do primeiro dia, a percepção que se consolidou entre palestrantes, organizadores e público é que o Sebrae Hacking 2026 pavimenta uma nova narrativa para o estado. De grande exportador de commodities, Mato Grosso projeta-se como hub de startups, inovação aplicada e economia criativa, com base em sua biodiversidade, diversidade cultural e vocação empreendedora.
Ao colocar criatividade no centro da estratégia, aproximar ciência e mercado, formar novos investidores e preparar jovens para um mundo cada vez mais digital, o evento antecipa discussões sobre o que será o estado em 2070 – e quem serão os protagonistas dessa transformação.
O MT Econômico acompanha de perto essa jornada de empreendedorismo e inovação em Mato Grosso trazendo temas de relevância aos leitores que buscam informações sobre o desenvolvimento econômico local e as oportunidades que surgem no ecossistema de inovação regional em plena ebulição.
