A Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt) reuniu nesta quinta-feira (07), em Cuiabá, governo estadual, setor produtivo e Invest MT para discutir os desafios da indústria mato-grossense e as estratégias para ampliar o peso do setor na economia. Hoje, cerca de 15% do PIB do estado vêm da atividade industrial, proporção considerada modesta em comparação a estados mais maduros do Sul e Sudeste, mas que vem crescendo em ritmo acelerado na última década.
O MT Ecpnômico traz nessa matéria especial aos leitores, um resumo do encontro, que marcou o lançamento da segunda edição do Anuário da Indústria de Mato Grosso e foi seguido do painel “Os desafios da indústria que mais cresce no Brasil”, com participação do governador Otaviano Pivetta, do presidente do Sistema Fiemt, Silvio Rangel, e do presidente da Invest MT, Mirael Praeiro. O foco foi claro: transformar o ciclo de expansão agropecuária em um segundo ciclo econômico, baseado em biocombustíveis, proteínas, diversificação industrial e qualificação de mão de obra.
Indústria cresce, mas ainda tem espaço no PIB
A gerente de Desenvolvimento Industrial da Fiemt, Vanessa Gasch, lembrou na abertura do painel que o PIB industrial de Mato Grosso alcançou quase R$ 37 bilhões em 2023, com crescimento de 166% em dez anos – o segundo maior avanço do país. A indústria de transformação, a construção e os serviços industriais de utilidade pública (energia e água) puxam esse movimento, enquanto as indústrias extrativas começam a ganhar relevância, especialmente com o potencial ainda pouco explorado da mineração e de terras raras.
Por outro lado, a participação de 15% da indústria no PIB estadual ainda é considerada baixa quando comparada a economias mais industrializadas. O próprio anuário mostra que alimentos, biocombustíveis, químicos, minerais não metálicos e bebidas concentram quase metade do PIB industrial, sinalizando um parque fabril fortemente ligado ao agronegócio e com espaço para diversificação.
Governador fala em “segundo ciclo econômico” e aposta em biocombustíveis
No painel, o governador Otaviano Pivetta definiu o momento atual como o “segundo ciclo econômico” de Mato Grosso. Ele lembrou que, na virada dos anos 2000, o Brasil inteiro colhia 100 milhões de toneladas de grãos, enquanto o estado sozinho colheu 110 milhões na última safra. Só nos últimos sete anos, foram acrescentados 46 milhões de toneladas à produção anual, o equivalente a um “novo Paraná”.
Pivetta projeta que, nos próximos oito anos, o estado deve chegar a cerca de 40 milhões de toneladas de milho esmagadas, gerando aproximadamente 14 bilhões de litros de etanol. O resíduo do processo vira farelo de alto teor proteico, reforçando a cadeia de proteínas animais. Para ele, Mato Grosso caminha para ser, de longe, o maior produtor de biocombustíveis da América Latina e um fornecedor global de energia limpa e alimentos.
O governador defendeu que o estado ofereça um ambiente seguro para investimentos, com solidez fiscal, segurança jurídica, infraestrutura, educação e saúde públicas de qualidade. Ele lembrou que o governo reorganizou as contas estaduais, retomou capacidade de investimento e está ampliando a malha de infraestrutura, com destaque para rodovias e ferrovias, como a Ferroeste/ferrovia estadual, vista como vetor decisivo para interiorizar o desenvolvimento industrial.
Fiemt: indústria presente em 140 municípios e agroindústria como vetor
Silvio Rangel, presidente da Fiemt, ressaltou que a indústria mato-grossense já está presente em 140 dos 142 municípios, com mais de 16 mil estabelecimentos e cerca de 197 mil empregos formais. O PIB industrial cresceu 266% nos últimos dez anos e representa hoje algo em torno de 16% do PIB estadual, cerca de R$ 36 bilhões.
Segundo ele, a agroindústria é o principal vetor de crescimento: alimentos e bebidas respondem por 32% do setor, construção por 25% e serviços industriais de propriedade pública por 15%, além de água, energia, derivados de petróleo e biocombustíveis. Rangel destacou a ascensão do etanol de milho: em oito anos, Mato Grosso saiu da sétima para a segunda posição nacional, com oito novas usinas em construção, e ainda há grande espaço para expansão, tanto em volume como em agregação de valor, inclusive para combustíveis de aviação e navegação à base de etanol.
A indústria responde por mais de R$ 6 bilhões em massa salarial anual, irrigando a economia em todas as regiões do estado. A taxa de desemprego está entre as menores do país, o que, paradoxalmente, cria um gargalo de mão de obra para as empresas.
Crédito caro, incertezas e infraestrutura limitam investimentos
Apesar do dinamismo, os desafios são significativos. Segundo dados da CNI de 2025, 72% das indústrias em Mato Grosso investiram, mas apenas 36% conseguiram executar os investimentos nos moldes planejados. Juros elevados, queda de receita, endividamento das famílias e incertezas econômicas foram apontados como os principais entraves.
No acesso ao crédito produtivo do FCO, o estado contratou cerca de R$ 4,6 bilhões, ou 33% do total aplicado no Centro-Oeste. Mas só 6% foram destinados à indústria, contra 43% para o desenvolvimento rural, 22% para comércio e serviços e cerca de 12% para projetos ambientais. É preciso aumentar a fatia da indústria nessas linhas e criar instrumentos com juros mais baixos e prazos compatíveis com o ciclo de investimento industrial.
Os efeitos da volatilidade do dólar, conflitos internacionais e a dependência externa de fertilizantes sobre as margens industriais e a reforma tributária, ainda em fase de implementação, também são pontos de atenção, por seus impactos incertos sobre estados em desenvolvimento, com infraestrutura rodoviária e energética ainda em consolidação, como é o caso de Mato Grosso.
Invest MT quer diversificar cadeias e levar indústria a municípios mais pobres
Mirael Praeiro, presidente da Invest MT, explicou que a agência trabalha para complementar as ações do governo e da Fiemt, com foco em diversificação industrial e interiorização dos investimentos. A estratégia é atrair indústrias nacionais e estrangeiras em áreas como fertilizantes, energias renováveis, mineração, base florestal e novas tecnologias, especialmente para municípios de baixo IDH, onde o impacto socioeconômico é maior.
Segundo ele, a atuação passa por combinar infraestrutura, qualificação profissional e ambiente de negócios favorável, em articulação com o sistema S (Senai, Sesi, Senac, Senar) e com prefeituras. O objetivo é fazer com que mais cidades se conectem às cadeias produtivas de maior valor agregado, reduzindo a dependência de poucos setores e aumentando a resiliência econômica local.
Qualificação: gargalo central de um estado com desemprego baixo
Um dos pontos comuns às falas de governo, Fiemt e Invest MT foi a falta de mão de obra qualificada. O anuário mostra que 17% dos trabalhadores formais do estado estão na indústria, mas a taxa de desemprego, em torno de 2,4% no último trimestre de 2025, é a segunda menor do país, o que torna difícil preencher vagas, inclusive em funções de menor exigência técnica.
Para enfrentar o problema, o Sistema Fiemt firmou parceria com o governo estadual para qualificar 50 mil pessoas em três anos e, recentemente, assinou acordo para oferecer formação técnica integrada a 20 mil alunos do ensino médio, que sairão da escola já com um curso profissionalizante. Há também acordos com ao menos 16 prefeituras para cursos de curta e média duração em áreas demandadas pela indústria.
Rangel destacou ainda a necessidade de ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho industrial, lembrando que grande parte das quase 650 mil mulheres fora da força de trabalho em Mato Grosso estão afastadas por responsabilidades com cuidados domésticos e familiares. Programas de formação e suporte social são vistos como caminho para reintegrar esse contingente e aliviar a escassez de mão de obra.
Planejamento, diversidade e educação como bases do próximo salto
Ao encerrar o painel, Vanessa Gasch reforçou que o Anuário da Indústria e o novo Índice de Diversidade Econômica funcionam como uma “bússola” para orientar decisões de investimento. A análise estatística indica que municípios com parque industrial mais diverso tendem a apresentar PIB mais elevado, reforçando a importância de políticas de diversificação, sem abandonar as vocações agroindustriais.
Governo e setor produtivo convergem na meta de dobrar o PIB industrial em até dez anos, ancorados na expansão dos biocombustíveis, da construção, da mineração e de novas cadeias tecnológicas. Para que esse crescimento se traduza em desenvolvimento, os participantes foram unânimes: será preciso manter a solidez fiscal, investir pesadamente em infraestrutura de logística e energia, e garantir educação e qualificação profissional como fundamento do novo ciclo industrial de Mato Grosso.