A produção brasileira de grãos segue em ritmo acelerado, mas a infraestrutura necessária para armazenar essa safra não acompanha a mesma velocidade. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil deverá colher 358,6 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, enquanto a capacidade estática de armazenagem do país é de 233,8 milhões de toneladas. O resultado é um déficit de aproximadamente 125 milhões de toneladas, suficiente para armazenar apenas 65,2% da produção nacional.
O descompasso também aparece quando se observa a evolução dos últimos anos. Entre as safras 2019/20 e 2025/26, a produção agrícola brasileira cresceu 42,9%, passando de 250,9 milhões para 358,6 milhões de toneladas. No mesmo período, a capacidade de armazenagem avançou 31,6%, de 177,7 milhões para 233,8 milhões de toneladas.
Embora o déficit nacional seja expressivo, o problema vai além dos números agregados. A pressão sobre os armazéns ocorre principalmente durante os períodos de colheita, quando grandes volumes precisam ser recebidos simultaneamente, e é mais intensa em regiões onde a infraestrutura não acompanhou o crescimento da produção.
Segundo Thales Souza, especialista do setor, o gargalo da armazenagem já deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a representar um desafio estratégico para o agronegócio brasileiro. “O Brasil ampliou significativamente sua capacidade de produção, mas a infraestrutura de armazenagem não evoluiu na mesma proporção. Esse desequilíbrio reduz a eficiência da cadeia, limita o potencial de comercialização dos produtores e cooperativas e aumenta os custos ao longo de toda a operação.”
A armazenagem desempenha papel fundamental na cadeia agrícola ao permitir que produtores e cooperativas decidam o melhor momento para comercializar a safra. Sem espaço para estocar os grãos, muitos produtores acabam vendendo a produção logo após a colheita, período em que a oferta é maior e os preços tendem a ser menores.
Além disso, a falta de capacidade de armazenagem provoca impactos indiretos sobre a logística. Quando boa parte da produção precisa ser escoada ao mesmo tempo, aumenta a demanda por transporte, elevando os custos com frete e pressionando a infraestrutura logística. De acordo com o Boletim Logístico da Conab, durante o pico do escoamento da soja, os fretes rodoviários em importantes rotas produtoras de Mato Grosso registraram alta de cerca de 10% em apenas um mês, chegando a 25% em alguns corredores de Goiás.
“As consequências não se limitam ao produtor. Quando toda a produção precisa ser transportada simultaneamente, há maior pressão sobre rodovias, caminhões e terminais, elevando custos logísticos que acabam afetando toda a cadeia do agronegócio”, explica Souza.
MAIOR PRODUTOR NACIONAL – As diferenças também aparecem entre os estados brasileiros. Em volume absoluto, Mato Grosso – maior produtor nacional de grãos e algodão – concentra o maior déficit de armazenagem do país, com aproximadamente 38,4 milhões de toneladas, seguido por Goiás (13,8 milhões), Paraná (5 milhões), Bahia (4,4 milhões) e Mato Grosso do Sul (4,2 milhões). Já em cobertura relativa, estados da nova fronteira agrícola apresentam os menores índices, como Rondônia (30%), Maranhão (45%), Pará (46%) e Tocantins (49%), evidenciando que a expansão da produção não foi acompanhada pelo mesmo ritmo de investimentos em infraestrutura.
Atualmente, os silos metálicos representam 53,3% da capacidade estática de armazenagem brasileira, seguidos pelos armazéns graneleiros (36,4%) e convencionais (10,3%), segundo o IBGE.
Para Thales, reduzir esse déficit exige mais do que ampliar as linhas tradicionais de financiamento. Ele defende operações com modelos econômico-financeiros capazes de atrair capital privado para a construção de novos armazéns ou modernização de parques já instalados, preservando a capacidade de investimento das cooperativas e tradings em outras áreas do negócio.
Nesse modelo, investidores aportam os recursos para a construção ou aquisição da infraestrutura, enquanto as cooperativas e tradings utilizam e operam os armazéns por meio de contratos de longo prazo. Dessa forma, conseguem ampliar sua capacidade de armazenagem sem realizar um elevado desembolso inicial e, outro benefício que o modelo sugere é que ao final do contrato, os ocupantes podem incorporar o ativo ao seu patrimônio. “O desafio não é apenas construir mais silos, mas criar mecanismos que viabilizem esses investimentos. Estruturas que aproximam capital privado e operadores do agronegócio permitem acelerar a expansão da armazenagem, fortalecem toda a cadeia e criam benefícios tanto para quem produz quanto para quem investe”, conclui Souza.
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