Lançado na segunda-feira, 2 de fevereiro, no auditório da Fiemt, em Cuiabá, o livro “A Economia Contemporânea de Mato Grosso” reúne análises de especialistas sobre o momento atual e as projeções para as próximas décadas no estado. Organizada pelo economista Vivaldo Lopes e publicada pela Entrelinhas Editora, a obra conta com a participação de 11 autores e se consolida como referência para gestores públicos, profissionais do planejamento governamental, instituições e empresas interessadas em compreender a dinâmica da economia de Mato Grosso.
A proposta, segundo o organizador Vivaldo Lopes relatou ao MT Econômico, nasceu de uma lacuna, apesar do ritmo acelerado de expansão, faltava uma leitura atualizada, capaz de explicar como a economia chegou ao patamar atual e para onde pode caminhar nas próximas décadas. “O livro surgiu da necessidade de interpretar a realidade atual da economia do Estado”, resumiu Lopes ao comentar a construção coletiva. Para dar conta das múltiplas nuances, o projeto reuniu especialistas com formações e olhares distintos, cada qual responsável por um capítulo, do meio ambiente ao comércio exterior, passando por indústria, desigualdades regionais e economia política.
A “primeira turbina” e a chegada de uma segunda
Entre as imagens mais marcantes apresentadas no lançamento, Vivaldo Lopes recorreu a uma metáfora direta, Mato Grosso como um avião que decolou bem e, agora, avança em alta velocidade. A “grande turbina” que sustenta o voo, segundo ele, é o agronegócio. Mas o que chama atenção, na leitura do economista, é a instalação de uma segunda turbina, a agroindustrialização.
No centro desse movimento, ele apontou o avanço do etanol de milho como exemplo de industrialização conectada ao campo. A expectativa, afirmou, é que nos próximos 30 anos o estado consolide uma espécie de “segunda locomotiva”, com a indústria ganhando protagonismo ao lado da agropecuária. A mensagem é clara, manter o desempenho não dependerá apenas de produzir mais, mas de agregar valor, sofisticar cadeias e ampliar produtividade, relatou à reportagem.
Meio ambiente, risco e trunfo na competitividade
O engenheiro florestal André Baby levou ao debate um tema que, cada vez mais, deixa de ser “capítulo à parte” e passa a influenciar todas as decisões econômicas, clima e sustentabilidade. Para ele, o desafio proposto no livro exigiu olhar o Mato Grosso adiante, 10, 20 anos, e entender como o meio ambiente pode ser, simultaneamente, um ponto sensível e uma vantagem estratégica.
Na visão apresentada, a sustentabilidade pode impactar diretamente a competitividade do estado, seja como exigência de mercado, seja como condição de resiliência diante do risco climático sobre o sistema produtivo. O recado é pragmático, não se trata apenas de reputação, mas de capacidade de planejar e manter desempenho em um cenário global cada vez mais atento a emissões, rastreabilidade e eventos extremos.
Comércio exterior, a engrenagem que acumulou riqueza
O economista Vitor Galesso detalhou como o comércio exterior se tornou peça-chave no desenvolvimento estadual, com ênfase na exportação como fator de acumulação de riqueza. Ele apontou a década de 1980 como período de arranque e destacou que, a partir dos anos 2000, o estado teria ultrapassado a marca de US$ 1 bilhão em exportações, seguindo em crescimento até superar US$ 30 bilhões.
Mais do que o volume, Galesso ressaltou ao MT Econômico, o efeito em cadeia, recursos vindos de fora impulsionam investimentos em infraestrutura e servem de base para o salto agroindustrial citado por Lopes. No “lado inverso” da balança, ele observou que grande parte das importações estaria concentrada em máquinas, equipamentos e tecnologia, sinalizando uma estratégia de modernização produtiva apoiada na renda gerada pelas vendas ao exterior.
Indústria, memória de 50 anos e o desafio da verticalização
O presidente da Fiemt, Silvio Rangel, e Vanessa Gasch abordaram o papel da indústria no progresso econômico mato-grossense. Rangel afirmou que o capítulo apresentado por eles buscou trazer um resumo da história da industrialização no estado nas últimas cinco décadas, um recorte que coincide com os 50 anos da federação.
Para o dirigente, revisitar etapas do passado ajuda a construir um futuro baseado na verticalização da produção, isto é, na transformação do que se produz no campo em produtos de maior valor agregado. Ele citou, como destaques recentes, o avanço de biocombustíveis, biodiesel e bioetanol, mencionando que o estado se consolidaria como o segundo maior produtor de etanol do país. Rangel também apontou em entrevista ao MT Econômico, o crescimento industrial de 6% em 2025, além do fortalecimento da inovação e da interiorização, dos 142 municípios, afirmou, 138 já têm presença industrial.
O outro lado do crescimento, desigualdades e contradições
Se parte do livro celebra a força econômica do estado, outro trecho propõe um olhar mais crítico sobre quem fica para trás. O economista Maurício Munhoz afirmou ter focado nas contradições do modelo, apesar do crescimento, persistem indicadores sociais que “não orgulham”. Entre os pontos citados, destacou a presença de quase 50 favelas na capital e o fato de quase 20% da população depender do Bolsa Família.
A síntese apresentada por Munhoz à reportagem é de que o desenvolvimento ocorre de forma “desigual e combinada”, há progresso impulsionado pelo agronegócio, mas a melhoria social não avança no mesmo ritmo, um alerta que, colocado ao lado das projeções otimistas, reforça o caráter multifacetado da obra.
Política e economia, coalizões que moldaram o caminho (1979–2025)
O analista político Vinícius de Carvalho trouxe ao livro um capítulo que percorre coalizões e projetos em disputa no desenvolvimento de Mato Grosso após a divisão (1979–2025). Ele disse ter utilizado o referencial da economia política para mostrar a evolução dos modelos, do nacional-desenvolvimentismo, com maior presença do Estado, a etapas associadas ao neoliberalismo, e como mudanças internacionais repercutiram no plano nacional e, depois, no estado.
Na leitura apresentada, a partir dos anos 1990, o Mato Grosso teria se tornado cada vez mais orientado à agroexportação, em um contexto de transformações institucionais e econômicas, como a Lei Kandir, citada como marco. O capítulo, segundo o analista, busca explicar quais alianças e agendas tornaram possível a trajetória recente e quais disputas permaneceram no caminho.
Uma coletânea para ler o passado recente e o “presente-futuro”
Além dos temas destacados no lançamento, a obra inclui capítulos como “Economia mato-grossense revisitada na cartografia do tempo”, de Fernando Tadeu de Miranda Borges, “A importância e a relevância do agronegócio para o desenvolvimento de Mato Grosso”, de Juan Bolsoni, e “O equilíbrio fiscal e o crescimento econômico de Mato Grosso (1995–2024)”, de Guilherme Muller e Ricardo Capistrano.
Em tom de síntese, a coletânea defende que pensar a economia local exige considerar raízes históricas, como a corrida do ouro que ajudou a consolidar Cuiabá e o território mato-grossense, e também os vetores contemporâneos, inovação, ciência, tecnologia, produção de alimentos e inserção internacional. O resultado é um mosaico de análises que não se limita a celebrar números, mas tenta responder à pergunta que move o livro desde a primeira página, o que explica o sucesso até aqui, e o que precisa mudar para que o futuro seja mais industrializado, resiliente e socialmente menos desigual?
O livro é fruto de um projeto viabilizado com recursos de emenda parlamentar do deputado estadual Thiago Silva. A iniciativa contou com o apoio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer e da Associação Mato-grossense de Inclusão Sociocultural.
O MT Econômico parabeniza todos os envolvidos neste belo projeto de valorização à Economia de Mato Grosso
