Antes de existir concreto, paredes e uma sede própria, havia um sonho compartilhado. Para que aquele sonho saísse do papel, economistas fizeram listas, contribuíram com o que podiam, buscaram doações de materiais e reuniram pessoas dispostas a trabalhar por uma causa comum. Décadas depois, foi essa história de união que voltou a ocupar o centro da “Casa dos Economistas”, em Cuiabá, nesta quinta-feira (13), durante as comemorações pelo Dia do Economista promovidas pelo Conselho Regional de Economia de Mato Grosso (Corecon-MT).
Em cobertura especial, o MT Econômico acompanhou a solenidade, marcada pelo reencontro de diferentes gerações de profissionais, pelo resgate da memória da instituição, pelo descerramento da placa da “Casa dos Economistas”, pela inauguração da sala de coworking e pela entrega de Moções de Aplauso a 29 economistas.

Aos 91 anos, o economista e ex-presidente do Conselho Agripino Bonilha Filho conduziu os presentes por uma verdadeira viagem no tempo. Foi durante sua gestão, entre 1980 e 1982, que a sede foi construída e inaugurada. Ao relembrar aquele período, Bonilha mostrou que o prédio hoje preservado e renovado nasceu menos da disponibilidade de recursos e muito mais da determinação de uma categoria que queria ter um lugar para chamar de seu.
“Esta casa não tem dinheiro público nenhum”, contou Agripino Bonilha emocionado, ao explicar como a obra avançava semana após semana. Segundo ele, para garantir o pagamento dos trabalhadores aos sábados, os próprios economistas contribuíam com pequenas quantias. “Os economistas entravam com cinco, com dez, com vinte, com trinta. Eu fazia uma lista”, recordou.
Se faltava dinheiro, sobrava mobilização. Bonilha buscava empresários e responsáveis por obras na cidade. Um colaborava com areia, outro com ferro, outro com cimento. Um engenheiro chegou a trabalhar gratuitamente no projeto. Assim, contribuição após contribuição, a construção ganhou forma. “Em menos de um ano, esta sede estava pronta”, relembrou.
Mas ainda havia desafios. Quando os recursos da categoria e a disposição para continuar pedindo ajuda já estavam no limite, ainda faltavam itens para finalizar o prédio. Segundo Bonilha, os móveis para concluir a sede foram viabilizados com apoio do então prefeito Frederico Campos.
Mais de quatro décadas depois, ao olhar para o imóvel preservado, ele resumiu o que ficou daquela geração: “Muito trabalho e muito idealismo”.
Foi justamente para manter viva essa memória que a programação deste Dia do Economista começou com o descerramento de uma placa em homenagem à diretoria e aos conselheiros responsáveis pela construção da sede. Mais que registrar nomes, a homenagem devolveu ao prédio parte da história das pessoas que fizeram dele um símbolo da profissão em Mato Grosso.
Em entrevista ao MT Econômico, o presidente do Corecon-MT, Emanuel Jesus Daubian Costa, destacou que a celebração deste ano buscou reconhecer profissionais que ajudaram a abrir caminhos para a economia no estado.
“Hoje, dia 13 de agosto, Dia do Economista, é uma data muito importante para a profissão. O Conselho buscou comemorar essa data premiando e aplaudindo os economistas que foram os precursores da profissão no Estado”, afirmou.
A solenidade reuniu diferentes gerações, entre profissionais ligados à academia, ao setor público, à iniciativa privada, à elaboração de projetos e à consultoria. Ao todo, 29 economistas receberam Moção de Aplauso pelos serviços prestados à sociedade e pela contribuição à profissão.
Uma casa que também olha para o futuro – Se o primeiro momento da manhã foi dedicado a quem construiu as bases do Conselho, o seguinte apontou para aqueles que estão começando a escrever novos capítulos dessa história.
O Corecon-MT inaugurou a Coworking, Sala de Trabalho Compartilhado do Economista, criada para oferecer estrutura aos profissionais, especialmente autônomos e jovens economistas que ainda estão iniciando sua trajetória no mercado.

O espaço dispõe de ambiente climatizado, internet de alta velocidade, televisão para apresentações e estrutura para reuniões, atendimento a clientes e atividades profissionais.
“Esse economista pode vir aqui, trabalhar aqui, fazer reuniões, atender clientes”, explicou Daubian ao MT Econômico. Segundo o presidente, o local também poderá favorecer conexões e oportunidades profissionais.
Mais do que disponibilizar mesas e internet, a proposta aproxima o economista de sua entidade de classe. Para quem está começando, a estrutura pode representar um primeiro endereço profissional, um ambiente adequado para apresentar um projeto ou receber um cliente. Para o Conselho, significa manter as portas abertas e transformar a sede em um espaço cada vez mais vivo, de relacionamento, troca de experiências e fortalecimento da categoria.
A iniciativa cria também uma ponte simbólica entre passado e futuro. A mesma casa construída coletivamente por economistas há mais de quatro décadas passa agora a acolher aqueles que chegam à profissão e precisam de espaço para começar.
Conhecimento que atravessa décadas – Entre os 29 homenageados com Moção de Aplauso estava o economista Ernani Lúcio Pinto de Souza, colunista do MT Econômico, reconhecido pela trajetória profissional e pela contribuição ao desenvolvimento econômico de Mato Grosso.

Sua relação com a economia começou no início da década de 1980. Entre 1980 e 1984, ainda durante a graduação, Ernani acompanhava debates que pareciam projetados para um futuro distante, mas que hoje estão no centro das discussões sobre desenvolvimento.
“Naquele período tivemos grandes discussões sobre ferrovias, sobre o uso do sol como fonte de energia, isso na década de 80, e hoje a gente vê essas coisas sendo efetivadas”, contou Ernani ao MT Econômico.
Desde então, sua trajetória passou principalmente pelo setor público. Atuou na antiga Centrais Elétricas Mato-grossenses (Cemat) e seguiu carreira na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde trabalhou com temas relacionados a orçamento, licitações, custo de vida em Cuiabá, energia e, mais recentemente, inovação tecnológica.
O tempo de profissão também ajudou Ernani a construir uma definição própria e direta sobre a ciência que escolheu estudar.
“Tudo é cultura, tudo é história, tudo é política, tudo é tecnologia, tudo é justiça, tudo é medicina. Mas o que importa é saber que tudo isso tem um custo, não um mero custo em termos de valor, mas um custo econômico, um custo contábil, um custo social”, explicou ao MT Econômico. E resumiu: “Tudo é economia”.
Para ele, os desafios contemporâneos tornam ainda mais necessária uma visão sustentável sobre a forma como recursos e investimentos são distribuídos. “É importante ter uma alocação sustentável para alcançar os objetivos de produção, distribuição e acumulação na sociedade”, afirmou.
Ao receber a homenagem, Ernani fez questão de dividir simbolicamente o reconhecimento com os muitos profissionais que fizeram parte de sua caminhada.
“Eu tive a oportunidade de conhecer muitos bons economistas […] e sempre procurei aprender perguntando alguma coisa, seja economista do setor público, seja economista do setor privado. Fico muito grato com essa moção”, disse ao MT Econômico.
Essa disposição para compartilhar conhecimento também marca sua colaboração com o MT Econômico, onde contribui com artigos e análises. Questionado pela reportagem sobre o que o motiva a dividir aquilo que acumulou ao longo da carreira, Ernani respondeu: “Como eu tive quem me auxiliou, eu me vejo como homem público e o que eu aprendi com os outros, tenho o dever de repassar da melhor maneira possível dentro do meu esforço”.
Por trás dos números, pessoas – Durante a solenidade, Emanuel Daubian também chamou atenção para o papel que os economistas desempenham diante das transformações vividas por Mato Grosso. Para ele, a profissão precisa participar ativamente das discussões sobre industrialização, diversificação econômica, inovação, infraestrutura, sustentabilidade, mudanças climáticas, novos padrões de consumo e transformações no mercado de trabalho.
O presidente ressaltou que o desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo aumento da produção.
“Desenvolvimento significa transformar crescimento em qualidade de vida, oportunidade, renda, infraestrutura, inovação, sustentabilidade e prosperidade para toda a sociedade”, destacou.
Em um cenário no qual dados, tecnologia e inteligência artificial passam a integrar cada vez mais a rotina profissional, Daubian defendeu que o conhecimento técnico continue acompanhado de uma percepção humana sobre as consequências das decisões econômicas.
“Por trás de cada indicador, existem pessoas. Por trás da inflação, existem famílias. Por trás do desemprego, existem histórias de vida. Por trás das decisões fiscais, existem serviços públicos. Por trás de investimentos, existem oportunidades”, afirmou.
Outra história compartilhada durante a solenidade foi a do economista e ex-conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso Valter Albano. Ao recordar a própria trajetória, ele contou que conheceu a profissão ainda quando vivia em Barra do Garças, depois de receber um livro sobre diferentes carreiras. Identificou-se com a Economia, mudou-se para Cuiabá, ingressou na Universidade Federal de Mato Grosso e construiu sua vida profissional a partir daquela escolha.
Ao receber a homenagem, preferiu inverter o gesto. “Eu não posso receber uma Moção de Aplauso. Eu devo aplaudir a profissão do economista”, declarou. “Devo a minha vida ao fato de ter estudado. Devo a minha vida à profissão do economista.”
A programação ainda abriu espaço para a discussão sobre infraestrutura e desenvolvimento, com palestra de Francisco Antônio Vuolo sobre ferrovias, adensamento produtivo, interiorização do desenvolvimento e formação de polos logístico-industriais.




