Mato Grosso vive um momento histórico na cadeia do leite e dos queijos artesanais. Na noite desta sexta-feira (24), o Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá, recebeu a cerimônia de Entronização da Guilde Internationale des Fromagers, confraria europeia que reúne a elite mundial da cultura queijeira. Ao todo, 13 personalidades ligadas ao setor foram entronizadas em um rito tradicional realizado em vários países, agora também em solo mato-grossense.
O evento coroou uma semana de celebrações. De um lado, a visita da alta cúpula da Guilde, que percorreu queijarias e pontos turísticos na Chapada dos Guimarães e no Pantanal, conhecendo de perto a produção local. De outro, o desempenho recorde no 4º Mundial do Queijo do Brasil, em São Paulo, onde os queijos e derivados lácteos de Mato Grosso conquistaram 29 medalhas, quatro delas na categoria SuperOuro, o topo do pódio.
Entre os novos membros da Guilde estão o governador Otaviano Pivetta; o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Max Russi; o deputado e produtor rural Gilberto Cattani; o presidente do Sistema Fiemt, Silvio Cezar Pereira Rangel; o empresário e presidente do Sindilat, Antônio Bornelli Filho; o produtor e presidente da Famato, Vilmondes Sebastião Tomain; o superintendente do Senar-MT, Marcelo Lupatini; a secretária de Agricultura Familiar (Seaf), Andreia Fujioka; os produtores Maria Cecília Branco Peres e Silas Vicente Barbosa Júnior (que também se tornou mestre queijeiro da Guilde); além do presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/MT, Jonas Alves, e da diretoria executiva da instituição, Lélia Brun, André Schelini e Roberto Dhamer.
Na abertura, Jonas Alves destacou que o estado deixou de ser apenas fornecedor de matéria-prima para se tornar referência em produtos de alto valor agregado. Segundo ele, o Sebrae atua há anos na qualificação de pessoas, na organização da cadeia produtiva e na profissionalização dos pequenos negócios, ajudando produtores a enxergar o queijo não só como alimento, mas como marca e ativo de mercado.
A diretora-superintendente do Sebrae/MT, Lélia Brun, reforçou que a instituição trabalha há mais de 20 anos de forma estruturada com a cadeia do leite, levando tecnologia, manejo, produtividade e qualidade, fortalecendo tanto a produção artesanal quanto a industrial. A secretária de Agricultura Familiar, Andreia Fujioka, ressaltou o orgulho do governo com os queijos premiados e garantiu a continuidade das políticas de apoio, crédito e assistência técnica, especialmente para pequenos produtores.
Do lado europeu, a mestre queijeira Débora Pereira, representante da Guilde no Brasil, chamou atenção para o caráter único dos queijos produzidos na Chapada e no Pantanal. Para ela, o território, a biodiversidade e as condições locais geram sabores impossíveis de replicar em outros países, abrindo caminho para indicações geográficas e denominações de origem protegida, que podem elevar ainda mais o valor pago ao produtor.
O governador Otaviano Pivetta, emocionado, lembrou a infância nas madrugadas de ordenha manual e defendeu que o estado seja “indutor e não dificultador” da produção, facilitando a legalização das queijarias e o acesso a mercados. Ele também assumiu o compromisso de ouvir o setor para ampliar crédito e condições de investimento na cadeia.
Além do reconhecimento simbólico, a semana foi marcada por um avanço concreto na competitividade da indústria láctea. Conforme noticiado pelo MT Econômico essa semana, foi publicado o Decreto nº 1.972/2026, que retira todos os derivados do leite do regime de Substituição Tributária (ST) do ICMS em Mato Grosso, a partir de 1º de maio de 2026. A medida, articulada pela Fiemt e pelo Sindilat, atende a uma demanda histórica das indústrias do estado.
Na prática, a mudança simplifica a tributação, elimina a necessidade de antecipação do imposto e reduz distorções que pressionavam o fluxo de caixa das empresas. A partir da nova regra, os derivados de leite passam a seguir o regime tributário em que cada empresa já está enquadrada, tornando a gestão fiscal mais previsível.
Outro ponto de destaque é a possibilidade de recuperar créditos de ICMS sobre estoques. O decreto cria um mecanismo específico para restituição: empresas do regime normal poderão compensar em até 24 parcelas, enquanto optantes pelo Simples Nacional terão a devolução em seis parcelas via PGDAS. A recomposição de capital de giro é vista pelo setor como decisiva para novos investimentos em qualidade, inovação e ampliação da produção.
O texto, porém, exige atenção das indústrias no curto prazo. Até 30 de abril de 2026, será necessário fazer inventário detalhado dos produtos, segregar corretamente as mercadorias conforme o tratamento tributário e informar tudo na Escrituração Fiscal Digital (EFD). Especialistas alertam que o processo é técnico, mas fundamental para garantir o direito aos créditos.
A expectativa é de que a combinação entre reconhecimento internacional, melhorias regulatórias e desburocratização tributária fortaleça a indústria de laticínios, aumente a competitividade frente a outros estados e contribua para a geração de empregos e a expansão da produção.
Guilde Internationale des Fromagers
Fundada em 1969, na França, a Guilde Internationale des Fromagers reúne mais de nove mil membros em diversos países, promovendo o saber-fazer, a amizade e o companheirismo entre produtores, curadores, comerciantes, chefs e amantes do queijo. Seu rito de Entronização, agora realizado também em Cuiabá, reconhece quem contribui para a valorização do queijo como patrimônio cultural, econômico e gastronômico.
Com 29 medalhas em concursos mundiais, uma irmandade internacional ao lado e um novo marco tributário em vigor, Mato Grosso se consolida não apenas como grande produtor de leite, mas como território de excelência em queijos de identidade própria, pronto para disputar espaço nas mesas do Brasil e do mundo.
