O Comunica Sicredi, realizado nesta quarta-feira (22/04) na sede do Sicredi Terra Nova em Cuiabá, reuniu executivos do sistema cooperativista, jornalistas locais e contou com a presença ilustre do renomado jornalista Caco Barcellos, apresentador do programa Profissão Repórter, da TV Globo. O MT Econômico traz esta matéria especial sobre o evento, que evidenciou o protagonismo de Mato Grosso dentro do Sicredi e promoveu um debate profundo sobre o papel do cooperativismo e da comunicação na transformação da sociedade.
Diretor executivo da Sicredi Central Centro-Norte, Seneri Paludo abriu os números mostrando a dimensão do sistema: 99 cooperativas singulares, cinco centrais e uma confederação, organizadas em um sistema, em que o associado é o verdadeiro dono. No país, o Sicredi possui 10 milhões de cooperados e já é a sétima maior instituição financeira em ativos. A grande diferença, enfatizou Seneri, está na tríade que guia o negócio: preços e produtos competitivos, relacionamento superior e impacto social por meio da essência cooperativista.
Em Mato Grosso, essa força aparece de forma contundente. O Sicredi está fisicamente em 130 municípios, tem associados em 100% das cidades, reúne 193 agências, 5.200 colaboradores e mais de 1 milhão de cooperados — o que significa que, entre as pessoas economicamente ativas, uma em cada três é dona da instituição. São R$ 56 bilhões em ativos, R$ 37 bilhões em carteira de crédito e R$ 7,5 bilhões em patrimônio, com resultado próximo de R$ 1 bilhão no último ano, o que consolida o Sicredi como maior instituição financeira privada do estado e dono da maior rede de agências há quatro anos consecutivos.
Paludo destacou ainda que, segundo metodologia do Banco Central, as taxas e produtos do Sicredi são, em média, de 15% a 20% mais baratos que os praticados pelo sistema financeiro tradicional. Só em 2023, cada associado teve, em média, um ganho financeiro equivalente a R$ 3,1 mil entre melhores condições e distribuição de sobras. Na regional Centro-Norte, foram investidos R$ 51 milhões em programas e projetos sociais, espalhados por todas as localidades onde o Sicredi está presente, reforçando o compromisso de devolver valor à comunidade.
A Sicredi Ouro Verde, com sede em Mato Grosso, foi apontada como a cooperativa de maior resultado no Brasil em 2023 e hoje é a maior de todo o sistema. O presidente Eledir Techio explicou o passo seguinte dessa trajetória: a união estratégica com a antiga Sicredi Norte, no Pará, que deu origem à Sicredi Ouro Verde Mato Grosso e Pará. A incorporação, aprovada por 98% dos associados, “trocou 20 anos por 24 horas”, nas palavras do dirigente, acelerando um processo de expansão que amplia a atuação para 34 municípios em território paraense e uma área de ação com população equivalente à de Mato Grosso, PIB de R$ 115 bilhões, R$ 47 bilhões em carteira de crédito e R$ 45 bilhões em aplicações financeiras.
Techio ressaltou o potencial de crescimento em mercados-chave. Em Cuiabá, a cooperativa já detém cerca de 15% de participação e mira 20% em pouco tempo, enquanto municípios como Lucas do Rio Verde já contam com 40% dos recursos financeiros girando dentro da cooperativa. Para ele, o maior concorrente do cooperativismo não são os grandes bancos, mas o desconhecimento da população sobre o modelo. A meta é atingir patamares semelhantes aos de países como Estados Unidos e nações europeias, onde cooperativas concentram até 55% do mercado financeiro.
Diretor executivo da Sicredi Ouro Verde, Roberto Vargas trouxe para o centro do debate o desafio de “provar na prática” a filosofia apresentada pelos demais executivos. Ele reforçou que, embora a vida financeira esteja cada vez mais digital, o futuro das agências será o de espaços de escuta ativa, onde as pessoas vão para serem ouvidas sobre seus sonhos, projetos e dificuldades. O foco passa a ser contratar e formar profissionais com competências humanas, capazes de entender pessoas, e não apenas especialistas em números.
Vargas detalhou a diferença estrutural entre cooperativas e bancos tradicionais: enquanto estes são sociedades de capital, em que quem tem mais ações tem mais poder, o Sicredi é uma sociedade de pessoas, onde cada CPF tem um voto, independentemente do volume investido. Na cooperativa, mais de 200 mil associados se unem em um único CNPJ, cooperando entre si, e as chamadas “sobras” — o resultado positivo do exercício — retornam proporcionalmente ao uso dos produtos e serviços. Só em 2023, a Sicredi Ouro Verde alcançou R$ 16 bilhões em ativos, R$ 12 bilhões em carteira de crédito e R$ 2 bilhões em patrimônio, sendo R$ 1 bilhão de capital dos próprios associados e R$ 1 bilhão em reservas. O resultado de R$ 346 milhões permitiu devolver R$ 140 milhões diretamente aos cooperados, entre juros ao capital e distribuição de resultados.
Em Cuiabá, a cooperativa é hoje a maior rede de atendimento: são 16 agências e 91 mil associados, o que representa um em cada seis cuiabanos vinculado ao Sicredi — ainda abaixo da média estadual, de um em cada três, o que indica espaço para expansão. A marca também ocupa a liderança nacional em lembrança entre instituições financeiras em capitais brasileiras. Vargas destacou iniciativas sociais como o programa “A União Faz a Vida”, que alcança 65 mil crianças e mais de 4 mil educadores em quase 200 escolas, e as ações de educação financeira em parceria com a Secretaria de Estado de Educação, além do Fundo Social, que destinará mais de R$ 4 milhões em 2024, sendo mais de R$ 1 milhão apenas para mais de 40 entidades cuiabanas. Em 2023, os projetos apoiados pela Sicredi Ouro Verde impactaram 498 mil pessoas, número superior ao total de associados, mostrando o alcance comunitário do cooperativismo.
A conexão entre cooperativismo e comunicação responsável ganhou ainda mais densidade com a participação de Caco Barcellos. O jornalista, que pediu que o encontro não fosse gravado por questões contratuais e em defesa dos direitos autorais de colegas pouco remunerados pelas plataformas digitais, compartilhou com o público sua visão crítica sobre a precarização do jornalismo, a lógica do “clique” e o domínio das big techs na circulação de informação.
Criador e apresentador do Profissão Repórter e autor de livros como “Rota 66” e “Abusado”, Caco defendeu o jornalismo de rua, baseado em apuração rigorosa e escuta qualificada das pessoas, em contraposição a uma cobertura excessivamente mediada por helicópteros, redações distantes e comentários de opinião. Para ele, a ausência de perguntas básicas — como o “por quê?” nos episódios de violência urbana — alimenta narrativas distorcidas, que criminalizam populações periféricas e negras e acabam moldando, no longo prazo, a própria escrita da história.
Diante de uma plateia formada por comunicadores e cooperados, o jornalista ressaltou que a responsabilidade de quem informa é decisiva: a forma como fatos são apurados hoje influenciará a maneira como serão interpretados por sociólogos, antropólogos e historiadores nas próximas décadas. Ao insistir na importância da “escuta” — palavra que atravessou sua fala — Caco Barcellos aproximou o jornalismo do próprio conceito de cooperativismo, que tem nas relações humanas, na participação democrática e no desenvolvimento local os seus pilares.
Ao reunir números robustos, expansão regional, investimento social e reflexão crítica sobre mídia e sociedade, o Comunica Sicredi mostrou que o cooperativismo de crédito em Mato Grosso já ultrapassou a condição de alternativa e se consolidou como protagonista econômico e social. E o MT Econômico acompanha de perto essa trajetória, trazendo aos leitores uma cobertura especial de um modelo que promete ganhar ainda mais relevância na vida financeira e comunitária dos mato-grossenses.